Manaus e Fortaleza deveriam adotar lockdown contra o coronavírus

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Crescimento da transmissão deveria ser interrompido com isolamento máximo, segundo Julio Croda, pesquisador da Fiocruz. Saída do isolamento precisa ser avaliada em cada macrorregião do Brasil, seguindo parâmetros de saúde, afirma.

Manaus Fortaleza deveriam adotar medidas de isolamento máximo, chamado de ‘lockdown‘, para barrar o aumento no número de casos de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, afirma Julio Croda, infectologista, pesquisador da Fiocruz e ex-diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde durante a gestão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O “lockdown” é o bloqueio total de circulação de pessoas, mais restritivo que o isolamento social. A medida foi adotada em alguns países com alto número de casos de Covid-19, como começou em Wuhan, na China, considerada o epicentro da doença, e também na Espanha e Itália. No Brasil, a medida não foi adotada, mas é citada pelo Ministério da Saúde, conforme consta no Boletim Epidemiológico 14, divulgado nesta segunda (27).

Croda comandava um centro de operação em emergência, dentro do ministério da Saúde, que contava com representantes de várias pastas. Ele afirma que Mandetta costumava convocar técnicos e avaliar dados para traçar políticas de combate ao Covid-19. Croda deixou o ministério em março após o governo federal anunciar um “comitê de crise”, que ficaria sob gestão da Casa Civil. Em abril, Mandetta também deixou o cargo. No último domingo, o ex-ministro afirmou que Bolsonaro “exonerou a ciência” quando decidiu demiti-lo.

Segundo Croda, as medidas de prevenção ao coronavírus no Brasil precisam ser diferentes para cada macrorregião. Para isso, leva-se em conta o número da população, leitos hospitalares, estrutura para profissionais de saúde, entre outros pontos.

Corpo de vítima do coronavírus é colocado em frigorífico por funcionários em Manaus — Foto: Bruno Kelly/Reuters

Por isso, afirma Croda, o lockdown seria efetivo em Manaus e Fortaleza porque estas cidades registram crescimento de casos e superlotação em leitos hospitalares.

“Eu recomendaria o lockdown para Manaus e Fortaleza porque, se você não tem capacidade de ter mais leitos, tem que aumentar as medidas de isolamento – e aumentar o que a gente já tem é lockdown”, afirma o infectologista Julio Croda, em entrevista ao G1.

Nesta terça-feira (28), Manaus registrava, até as 14h21, 255 mortes causadas pelo novo coronavírus, 2.738 casos confirmados. No estado do Amazonas, 96% dos leitos de UTI ocupados, de acordo com um levantamento feito pelo G1. Os dados de Fortaleza apontam 320 mortes, 5.432 casos confirmados, e o Ceará tinha 98% dos leitos de UTI ocupados.

O G1 entrou em contato com a secretaria de saúde de Manaus e Fortaleza para saber se estão sendo estudadas medidas semelhantes, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.

Afrouxamento da quarentena

Croda afirma que a decisão sobre afrouxar ou não o isolamento social e retomar as atividades cotidianas cabe aos gestores locais, levando-se em conta a realidade de cada área.

Na avaliação do infectologista, o combate à pandemia no Brasil precisa ser feito por macrorregiões, que são menores que estados, e devem considerar cinco preceitos:

  • leitos de UTI
  • 14 dias de quedas sucessivas em óbitos
  • taxa de contágio baixa
  • equipamentos de proteção para a saúde e testes
  • sistema de monitoramento

“Se você já está superlotado, não tem sentido nenhum sair do isolamento, na verdade vai ter que aumentar isolamento”, afirma Croda.

É o que ocorre com São Paulo, onde o governo pretende estabelecer critérios para sair do isolamento, por região, a partir de 10 de maio. A situação da capital e região metropolitana deverá ser analisada. Dados divulgados pela Secretaria da Saúde de São Paulo nesta terça apontam que, pela primeira vez, a taxa de ocupação dos leitos de UTI nos hospitais chegou a 81% na Grande São Paulo e chega a 61,6% no estado.

Já as quedas sucessivas no número de óbitos por 14 dias apontaria que a transmissão está diminuindo. A taxa de contágio baixa, também. “Em termos de isolamento podemos dizer que você foi efetivo, achatou a curva e está pronto para sair do isolamento”, afirma.

A oferta suficiente de equipamentos de proteção individual (EPIs) garantiria proteção aos profissionais de saúde, impedindo que eles se contaminem, explica Croda. E o número suficiente de testes permitiria monitorar as pessoas contaminadas. “Quando você sair do isolamento, vai ter mais pessoas contaminadas. [A região] Pode até ter leito de UTI, você se você não testa pessoas com sintomas, você não consegue isolar, identificar, e se não tem EPI, não adianta ter leito de UTI sem profissional de saúde paramentado”, afirma.

Outro ponto é o sistema de monitoramento, para rastrear por onde as pessoas estão se deslocando e como a infecção se desenvolve. “Isso é importante, principalmente, para retomar o isolamento se você tiver uma segunda onda de contaminação, que exceda a capacidade de internação em UTI”, explica. Desta forma, seria possível interferir antes que o sistema entre em colapso novamente.

Por Elida Oliveira, G1

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