Espécie rara de planta carnívora é encontrada pela primeira vez no Nordeste, em Campo Maior (PI)

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Uma espécie rara de planta carnívora aquática foi registrada pela primeira vez no Nordeste do Brasil. Pesquisadores identificaram a Utricularia warmingii em uma área alagada do município de Campo Maior, no Piauí, a cerca de 80 quilômetros de Teresina. A descoberta levou cientistas a reavaliar o risco de extinção da espécie no país.

Foto: Francisco Sousa

O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Piauí (UFPI), com participação do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), e foi publicado na revista científica Kew Bulletin. Com base nos novos dados, os autores sugerem que a espécie seja classificada como “Em Perigo” no Brasil, devido à sua ocorrência restrita, populações isoladas e às ameaças crescentes aos ambientes aquáticos onde vive.

Espécie não era registrada em algumas regiões há mais de 80 anos

A planta foi encontrada durante um inventário de plantas aquáticas realizado em 2023. Em algumas regiões do país, a espécie não era registrada há mais de 80 anos, o que reforça a importância da descoberta.

A Utricularia warmingii pertence à família Lentibulariaceae e vive submersa em águas rasas, podendo atingir até seis centímetros de altura. Ela captura pequenos organismos aquáticos por meio de estruturas microscópicas chamadas utrículos, que funcionam como armadilhas típicas das plantas carnívoras do gênero Utricularia.

Suas flores brancas com tons de amarelo e vermelho surgem em uma haste inflada cheia de ar, que ajuda a planta a flutuar na superfície da água.

Distribuição rara e populações isoladas

Foto: Francisco Sousa

Apesar de ocorrer em alguns países da América do Sul, como Bolívia, Colômbia e Venezuela, os registros da espécie são considerados raros e bastante espaçados.

No Brasil, ela já havia sido registrada no Pantanal e em áreas do Sudeste, mas algumas dessas populações podem ter desaparecido ao longo do tempo. No estado de São Paulo, por exemplo, não há registros da planta desde 1939, o que pode indicar extinção local. A ausência de novas coletas também levanta dúvidas sobre a permanência da espécie em Minas Gerais, onde foi descrita pela primeira vez, em 1877.

Segundo o pesquisador Francisco Ernandes Leite Sousa, mestrando da UFPI e líder do estudo, a descoberta amplia o conhecimento sobre a distribuição da espécie, mas também acende um alerta.

“A descoberta no Piauí amplia o conhecimento sobre a distribuição da espécie, mas também evidencia sua vulnerabilidade. Até agora, a população encontrada parece estar restrita a um único local”, destacou.

Ambientes aquáticos estão entre os mais ameaçados

De acordo com os pesquisadores, a planta ocorre em lagoas rasas e áreas alagadas temporárias, ambientes considerados altamente sensíveis a mudanças ambientais.

Entre as principais ameaças estão mudanças no regime de cheias, expansão agropecuária, uso de fertilizantes, espécies invasoras e alterações na paisagem, que podem comprometer a qualidade da água e a sobrevivência da espécie.

O pesquisador Paulo Minatel Gonella, do Instituto Nacional da Mata Atlântica e coautor do estudo, explica que plantas como a Utricularia warmingii podem até aparecer distribuídas em diferentes pontos no mapa, mas na prática ocupam pequenos fragmentos de habitat, o que aumenta a vulnerabilidade.

Área ocupada é muito pequena

No Brasil, os registros confirmados indicam que as populações da espécie estão separadas por grandes distâncias e ocorrem em poucos locais isolados. A área real ocupada pela planta no país é estimada em apenas 36 km².

Esse cenário reduz as chances de recolonização natural caso uma população desapareça, aumentando o risco de extinção regional.

Para os autores do estudo, a descoberta também reforça a necessidade de intensificar pesquisas em regiões ainda pouco estudadas, como o interior do Nordeste.

“Áreas como o interior do Nordeste permanecem subamostradas, e novos estudos podem revelar espécies raras ou populações ainda desconhecidas”, afirmou Gonella.

Os pesquisadores destacam ainda que proteger áreas úmidas naturais é essencial para preservar espécies altamente especializadas e sensíveis às mudanças ambientais.

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