Pesquisadores dos Estados Unidos e do Reino Unido estudam vacinas para pessoas com uma condição genética hereditária que pode elevar para até 80% o risco de câncer colorretal
Cientistas estão testando novas vacinas experimentais para tentar prevenir o desenvolvimento de câncer em pessoas com síndrome de Lynch, condição genética hereditária associada a um risco elevado de câncer colorretal e outros tumores. Pelo menos três possíveis vacinas estão em desenvolvimento, com estudos clínicos nos Estados Unidos e no Reino Unido.
A síndrome de Lynch é provocada por alterações hereditárias em genes responsáveis pela correção de erros que ocorrem no DNA durante a multiplicação das células. Quando esse mecanismo não funciona adequadamente, alterações genéticas podem se acumular e favorecer o desenvolvimento de tumores, inclusive antes dos 50 anos.

O câncer colorretal está entre os principais riscos associados à condição. Enquanto a probabilidade de desenvolver a doença ao longo da vida é de cerca de 5% na população em geral, entre pessoas com síndrome de Lynch ela pode chegar a 80%, dependendo do gene afetado, segundo o pesquisador Eduardo Vilar-Sanchez, do MD Anderson Cancer Center, nos Estados Unidos.
A condição também aumenta o risco de câncer de endométrio, pâncreas, estômago e ovário, além de determinados tumores de pele e do sistema nervoso central.
Vacinas buscam impedir o avanço das lesões
Atualmente, pessoas diagnosticadas com síndrome de Lynch precisam manter acompanhamento médico rigoroso. Entre as principais medidas está a realização frequente de colonoscopias para identificar e retirar pólipos, lesões que podem evoluir para câncer.
Os pesquisadores querem avançar na prevenção, preparando o sistema imunológico para reconhecer alterações associadas às células pré-cancerosas e combatê-las antes da formação de um tumor.
Uma das vacinas em estudo foi desenvolvida pela empresa suíça de biotecnologia Nouscom. Em uma pesquisa inicial, 45 pessoas com síndrome de Lynch receberam o imunizante, projetado para ensinar o sistema imunológico a identificar 209 alterações encontradas em lesões pré-cancerosas relacionadas à condição.
Segundo resultados publicados na revista científica Nature Medicine pela equipe do MD Anderson Cancer Center, a vacina aumentou a atividade de células T envolvidas na resposta contra tumores. Após um ano, os pesquisadores também observaram menos lesões pré-cancerosas nas colonoscopias dos participantes e nenhum pólipo avançado.
Os achados ainda são preliminares e precisam ser confirmados em estudos maiores para determinar se a estratégia realmente consegue reduzir a ocorrência de câncer.
Médica participa de estudo após histórico de câncer na família
Entre as participantes está a médica Stacy Norton, de Houston, nos Estados Unidos. Ela tinha 7 anos quando perdeu a mãe para um câncer de intestino. Outros integrantes da família também desenvolveram tumores agressivos em idades consideradas precoces.
Norton descobriu que tinha síndrome de Lynch quando estava na faixa dos 40 anos, após realizar um teste genético. Desde então, passou a fazer colonoscopias anualmente.
Por conhecer os riscos associados à condição, ela também decidiu passar por uma histerectomia preventiva. Durante o procedimento, médicos identificaram um câncer em estágio inicial no útero retirado.
Atualmente com 59 anos, Norton tem dois filhos, ambos na faixa dos 20 anos, que também herdaram a mutação genética.
Pela primeira vez desde 2014, as colonoscopias realizadas pela médica um e dois anos após a vacinação não identificaram pólipos. O resultado individual, porém, não comprova que a ausência das lesões tenha sido causada pela vacina. Norton também integra um grupo que recebeu uma dose de reforço.
Outros estudos estão em andamento
Pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, também iniciaram testes de uma estratégia para combater lesões pré-cancerosas associadas à síndrome de Lynch. A vacina, desenvolvida pela Moderna, utiliza tecnologia de RNA mensageiro, a mesma plataforma empregada em uma das vacinas contra a Covid-19.
Outra linha de pesquisa avalia a vacina Tri-Ad5, desenvolvida pela empresa americana ImmunityBio. O estudo compara o imunizante com placebo e analisa sua capacidade de estimular o sistema imunológico contra marcadores associados ao câncer.
Diferentemente das vacinas contra o HPV e a hepatite B — que reduzem o risco de determinados cânceres ao prevenir infecções virais —, as novas pesquisas tentam prevenir tumores relacionados diretamente a alterações genéticas.
Maioria das pessoas com síndrome de Lynch não sabe que tem a condição
Estima-se que a síndrome de Lynch afete aproximadamente uma em cada 279 pessoas, mas grande parte dos portadores desconhece que possui a alteração genética.
O histórico familiar é um dos fatores que podem levar à investigação da síndrome. Casos de câncer colorretal ou outros tumores associados à condição em pessoas jovens também podem motivar avaliação médica e aconselhamento genético.
Nos Estados Unidos, aproximadamente 158 mil pessoas são diagnosticadas com câncer colorretal a cada ano. A maioria dos casos ocorre após os 50 anos, embora diagnósticos entre adultos mais jovens estejam aumentando.
Para a população em geral, as recomendações americanas indicam o início do rastreamento do câncer colorretal aos 45 anos. Pessoas com síndrome de Lynch seguem protocolos específicos e podem precisar iniciar os exames mais cedo e realizá-los com maior frequência.
Independentemente da idade, sintomas como sangue nas fezes, sangramento retal, alterações persistentes do funcionamento intestinal, perda de peso sem explicação, cólicas ou dores abdominais devem ser avaliados por um profissional de saúde.





