Pesquisas internacionais sobre vacinas contra o câncer alcançaram uma nova etapa e já têm candidatos prontos para testes em humanos. Cientistas da Universidade de Oxford estiveram no Brasil nesta semana para discutir parcerias com instituições nacionais e avaliar a participação do país nos próximos estudos clínicos.
As tratativas ocorreram durante um workshop realizado pelo A.C. Camargo Cancer Center, que reuniu pesquisadores, representantes do Ministério da Saúde e instituições de pesquisa. O encontro teve como foco a ampliação de cooperação em áreas como imunoterapia, inteligência artificial e ensaios clínicos.

Um dos projetos mais avançados é uma vacina voltada a tumores associados ao vírus Epstein-Barr (EBV), presente na maior parte da população mundial e relacionado a cerca de 200 mil casos de câncer por ano. O imunizante já concluiu a fase pré-clínica, etapa em que os testes são feitos em laboratório e em modelos animais, e deve avançar para estudos com humanos.
A estratégia dos pesquisadores inclui ampliar os testes em regiões onde determinados tipos de câncer são mais frequentes. É o caso do linfoma de Burkitt, registrado em países africanos e também em áreas do Norte do Brasil.
Os cientistas destacam a rapidez no desenvolvimento dessas vacinas. Em alguns projetos conduzidos em Oxford, o intervalo entre a concepção inicial e a preparação para testes clínicos foi de aproximadamente três anos, período considerado reduzido dentro da oncologia.
Esse avanço é atribuído ao uso de tecnologias já consolidadas, como as plataformas de mRNA, combinadas a novas abordagens que estimulam o sistema imunológico a reconhecer e combater células tumorais.
Atualmente, diferentes frentes de pesquisa estão em andamento. Entre elas, a LungVax, voltada ao câncer de pulmão e próxima de iniciar testes em humanos; uma vacina para síndrome de Lynch, direcionada a pessoas com predisposição genética; além de estudos voltados a câncer de mama, ovário, trato gastrointestinal e mieloma.
As vacinas em desenvolvimento seguem duas linhas principais. A primeira é terapêutica, aplicada em pacientes já diagnosticados para reforçar a resposta imunológica contra o tumor. A segunda é preventiva, direcionada a pessoas com maior risco, com o objetivo de evitar o surgimento da doença.
Outra frente de pesquisa envolve o uso de inteligência artificial. Modelos computacionais analisam dados de diferentes tipos de tumor para identificar alvos mais eficazes, o que pode permitir a criação de vacinas mais precisas e, futuramente, personalizadas.
O Brasil é considerado estratégico nesse cenário. A proposta discutida inclui participação em ensaios clínicos, uso de biobancos e desenvolvimento conjunto de tecnologias. Também está em debate a viabilidade de produção e acesso a essas terapias em países de renda média.
Apesar dos avanços, os pesquisadores ressaltam que os estudos ainda estão em fase inicial e dependem da comprovação de segurança e eficácia em humanos. Um dos desafios é a resposta variável dos pacientes, já que nem todos apresentam reação imunológica suficiente com os modelos atuais.
As vacinas contra o câncer funcionam de forma diferente das vacinas tradicionais. Em vez de prevenir infecções, elas treinam o sistema imunológico para reconhecer células tumorais, que muitas vezes passam despercebidas pelo organismo. Para isso, utilizam fragmentos do tumor ou de agentes associados, estimulando células de defesa a identificar e atacar essas estruturas.
Com os primeiros testes clínicos se aproximando e novas tecnologias acelerando o desenvolvimento, a expectativa é de que essas vacinas passem a integrar, nos próximos anos, as estratégias de tratamento e prevenção do câncer.





