USP identifica ação antitumoral de substância que intensifica medicamentos já usados e abre caminho para tratamentos mais eficazes e menos tóxicos
Uma substância natural isolada de um fungo pode representar um avanço importante no combate a um dos tipos mais agressivos de câncer de mama. A cefalocromina, extraída de um fungo do gênero Alternaria, demonstrou ação contra células de câncer de mama triplo-negativo, subtipo conhecido pela alta agressividade e pela escassez de terapias direcionadas. Os resultados foram publicados na revista científica Journal of Natural Products por pesquisadores do Universidade de São Paulo (USP).

O estudo foi conduzido no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) e aponta que a cefalocromina tem potencial antineoplásico relevante, especialmente por atuar de forma seletiva em células tumorais. Segundo os pesquisadores, a substância interfere na survivina (BIRC5), uma proteína que quase não aparece em tecidos adultos saudáveis, mas está presente em grandes quantidades em células cancerígenas, onde contribui para a sobrevivência e proliferação do tumor.
Como a cefalocromina atua no câncer de mama
A survivina é um alvo estratégico na oncologia justamente por sua associação com resistência ao tratamento e progressão da doença. Ao inibir essa proteína, a cefalocromina induz a morte das células tumorais sem causar danos significativos às células saudáveis. Esse ponto é considerado central pelos cientistas, já que um dos grandes desafios dos tratamentos atuais é equilibrar eficácia terapêutica e toxicidade.
Nos testes laboratoriais, a substância apresentou atividade especialmente relevante contra células de câncer de mama triplo-negativo, subtipo que não expressa receptores hormonais nem a proteína HER2, o que limita o uso de terapias-alvo e torna a quimioterapia a principal opção de tratamento.

Efeito sinérgico com quimioterápicos tradicionais
Além da ação isolada, os pesquisadores analisaram o comportamento da cefalocromina quando combinada a quimioterápicos amplamente utilizados no tratamento do câncer de mama, como paclitaxel e doxorrubicina. Em ambos os casos, foi observado um efeito sinérgico: a presença da cefalocromina intensificou a ação dos medicamentos.
Na prática, isso significa que doses menores de quimioterápicos podem alcançar o mesmo nível de eficácia obtido com doses mais altas quando os fármacos são usados sozinhos. Essa redução de dose é estratégica, pois está diretamente associada à diminuição de efeitos colaterais, como náuseas, queda de cabelo, fadiga intensa e toxicidade cardíaca.
“Utilizar medicamentos em concentrações mais baixas pode potencializar o efeito terapêutico sem aumentar, necessariamente, a toxicidade”, explicou o professor João Agostinho Machado Neto, do Departamento de Farmacologia do ICB e supervisor do estudo, ao Jornal da USP.

Esperança para casos resistentes ao tratamento
Embora os tratamentos atuais para câncer de mama sejam eficazes em muitos casos, uma parcela das pacientes, especialmente aquelas com tumores triplo-negativos, não responde adequadamente às terapias disponíveis. Por isso, o foco da pesquisa foi buscar alternativas que ampliem as opções terapêuticas para esse grupo.
Para Isabelle Diccini, primeira autora do artigo científico sobre o tema, os resultados são animadores: um tratamento promissor para um subtipo tão agressivo pode, no futuro, significar menos efeitos colaterais, maior adesão ao tratamento e melhor qualidade de vida para as pacientes.
Próximos passos: cautela e tempo
Apesar do potencial, os pesquisadores reforçam que esta é apenas a primeira etapa no desenvolvimento de um novo medicamento. O processo até que uma substância chegue ao mercado pode levar cerca de dez anos e exige investimentos elevados. As próximas fases incluem testes de eficácia e toxicidade em modelos animais, seguidos por ensaios clínicos em humanos para avaliar segurança e resultados terapêuticos.
Ainda assim, a descoberta da cefalocromina reforça a importância da biodiversidade e da pesquisa científica no desenvolvimento de novas estratégias contra o câncer, especialmente aquelas capazes de tornar os tratamentos mais eficazes e menos agressivos.
Com informações do Metrópoles




