Como o mundo conseguiu uma vacina em menos de 1 ano

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Em abril, muitos especialistas pelo mundo acreditavam que uma vacina contra a Covid-19 precisaria de ao menos 18 meses para ser desenvolvida. O imunologista Anthony Fauci, chefe do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID, em inglês), por exemplo, disse na época que levaria de um ano a um ano e meio para produzir a substância.

Mas a necessidade diante dos alarmantes números de novos casos e mortes desencadeou uma corrida sem precedentes pelo desenvolvimento de um imunizante. Assim, em menos de um ano, o mundo conseguiu desenvolver diversas vacinas contra a doença.

Shot of a young scientist conducting an experiment in a laboratory

Nessa terça-feira (8), o Reino Unido se tornou o primeiro país ocidental a aplicar uma vacina em pessoas fora dos testes clínicos. A substância da Pfizer/BioNTech obteve uma autorização de uso emergencial no país e, em menos de uma semana, a população começou a ser vacinada.

Velocidade sem precedentes

“Acho que nunca foi feito em uma escala industrial em 18 meses”, disse, em abril, Amesh Adalja, especialista em doenças infecciosas do Centro de Segurança Sanitária da Universidade de Medicina Johns Hopkins. “O desenvolvimento de uma vacina geralmente é medido em anos e não meses.”

A BioNTech começou a estudar uma possível vacina ainda em janeiro, quando um dos fundadores da companhia acreditou que a doença poderia se tornar uma pandemia mundial. Dois meses depois, a empresa firmou uma parceria com a Pfizer para conduzir as pesquisas.

Os estudos clínicos de uma vacina normalmente começam com testes em animais. Em seguida, há um processo dividido em três fases – após aprovação em uma, a pesquisa segue para a fase seguinte.

• 1ª fase: um pequeno grupo de pessoas recebe a vacina; elas são monitoradas para analisar a segurança e a resposta do sistema imunológico.

• 2ª fase: um grupo maior recebe a vacina (agora, cerca de centenas de indivíduos), incluindo pessoas de grupos de risco.

• 3ª fase: um grupo ainda maior recebe a vacina (agora, cerca de milhares de indivíduos) para analisar a eficácia e a segurança da substância.

Em maio, a BioNTech e a Pfizer iniciaram as fases 1 e 2 dos estudos clínicos. No mês seguinte, conduziram as fases 2 e 3, com cerca de 30 mil voluntários nos EUA, Argentina, Brasil, Alemanha, entre outros. 

Em novembro, surgiram os primeiros resultados promissores: dados preliminares indicaram que a vacina tinha mais de 90% de eficácia e não apresentava efeitos colaterais. Pouco depois, os resultados finais apontaram mais de 95% de eficácia.

Após os estudos e testagens, cabe aos países e respectivas agências reguladoras concederem uma autorização de uso emergencial para a substância. Agilizar, com responsabilidade, essa burocracia pode salvar milhões de vidas. No caso da vacina da Pfizer, o Reino Unido foi o primeiro país no ocidente a obter essa autorização.

Do outro lado do mundo, o Ministério da Saúde da Rússia concedeu em agosto a aprovação regulatória para a Sputnik V, vacina desenvolvida pelo Instituto Gamaleya de Moscou, após menos de dois meses de testes em humanos. Em meados de novembro, o fundo que financia o projeto afirmou que o imunizante tinha 92% de eficácia.

Tecnologia inédita

Além de meses intensos de pesquisas e testes, um dos principais fatores que levaram ao rápido desenvolvimento de uma vacina contra o novo coronavírus foi a utilização de uma nova tecnologia. Ao contrário das vacinas tradicionais, que usam vírus inativados ou enfraquecidos, a da Pfizer, por exemplo, usou o RNA mensageiro.

A substância não usa nenhuma parte do vírus vivo, mas sim informações genéticas do novo coronavírus. A partir disso, o RNA mensageiro faz as células do corpo produzirem proteínas para estimular uma resposta do sistema imunológico que previne ou combate a doença. 

O método, que começou a ser desenvolvido nos anos 1990, não era utilizado em nenhuma vacina para humanos até então. A nova tecnologia permitiu reduzir meses no desenvolvimento do imunizante.

Investimento pesado

Claro que para realizar todas as pesquisas e testes necessários para a fabricação de uma vacina é necessário um investimento pesado das partes envolvidas. Diversos governos vêm injetando bilhões de dólares em empresas e instituições que trabalham para desenvolver uma substância, como a Operação Warp Speed, dos EUA, e a Força-Tarefa para a Vacina, do Reino Unido.

Os EUA destinaram mais de US$ 1,5 bilhão somente para produção e distribuição doméstica, na tentativa de garantir que a vacina possa ser produzida em larga escala. Além disso, o país já gastou cerca de US$ 10,8 bilhões com desenvolvimento e aquisição dos imunizantes.

Já a União Europeia (UE) iniciou em janeiro extensos programas de financiamento para pesquisa e desenvolvimento de vacinas. Na época, prometeu cerca de US$ 412 milhões para a busca de um imunizante. 

Como parte desse esforço, o bloco emprestou US$ 75 milhões para a empresa de biotecnologia alemã Curevac e US$ 117 milhões para a BioNTech. Em maio, a UE anunciou o envio de US$ 109 milhões para os estudos da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford/AstraZeneca e da instituição Imperial College de Londres. 

Além da vacina da Pfizer/BioNTech, também seguem em estágios avançados de estudos os imunizantes da Oxford/AstraZeneca, da Moderna, da Janssen (Johnson & Johnson) e da Coronavac, parceria entre o laboratório chinês Sinovac e o Instituto Butantan.

(Com informações da CNN Internacional)

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