Flávio Bolsonaro aponta ‘omissão’ de Lula sobre narcoterrorismo, mas rejeita intervenção estrangeira

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Declaração ocorreu após o jornal americano ‘The New York Times’ apontar pressão do senador ao governo Trump por classificação do PCC e CV como terroristas

O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) reagiu nesta sexta-feira à reportagem do jornal “The New York Times” que apontou pressão dele e do irmão Eduardo Bolsonaro (PL) ao governo dos Estados Unidos para o país classificar as facções Primeiro Comando Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como terroristas. O parlamentar cita o que chamou de “omissão” da gestão brasileira sobre narcoterrorismo, mas nega apoiar que outro país “resolva nossos problemas”.

Danilo Verpa
“O Brasil perdeu um pedaço importante do seu território para facções narcoterroristas. Com o uso de equipamentos de guerra, bombas e drones, elas 'governam' milhões de brasileiros. E é o dinheiro do tráfico de drogas e a omissão do governo Lula que mantêm esse império do medo de pé. Eu não defendo que nenhum país estrangeiro venha resolver nossos problemas: as nossas questões nós resolvemos em casa. Mas sou totalmente favorável à colaboração internacional para eliminar de vez esses grupos narcoterroristas", disse o senador, em nota.

reportagem do jornal americano destaca que a segurança tornou-se uma grande preocupação para os eleitores brasileiros, e a designação poderia dar maior destaque ao tema e beneficiar Flávio contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A proposta, discutida nas últimas semanas no Departamento de Estado, gerou preocupação entre autoridades brasileiras de que os EUA possam influenciar as eleições para favorecer Flávio. Nesta sexta-feira, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, teve dois encontros com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, na reunião de chanceleres do G7, na França. A designação de facções criminosas como grupos terroristas tem sido tema de debates entre Brasil e Estados Unidos.

No ano passado, o presidente Donald Trump usou tarifas e sanções para tentar impedir a prisão de Bolsonaro, acusado de orquestrar um golpe de Estado após perder a última eleição para o presidente Lula, em 2022. Bolsonaro acabou condenado a 27 anos de prisão.

Cartéis Mexicanos

O governo Trump classificou facções latino-americanas como organizações terroristas, parte de uma campanha para atingir grupos criminosos que representariam ameaça aos EUA, incluindo cartéis de drogas mexicanos. No entanto, PCC e CV não desempenham papel importante no tráfico de drogas aos EUA. As facções enviam, principalmente, cocaína à Europa.

Marco Rubio tem pressionado. No último dia 8, um dia depois de Trump ter sediado uma cúpula de líderes conservadores latino-americanos para discutir crime e drogas, Rubio afirmou ao ministro das Relações Exteriores do Brasil que o governo Trump planejava fazer a classificação.

O secretário também pediu a Mauro Vieira que classificasse as facções como grupos terroristas, mas Vieira disse que seu governo não o faria, segundo interlocutores. O Departamento de Estado ainda não finalizou as designações e qualquer decisão interna pode ser revertida. O departamento se recusou a comentar sobre as possíveis designações, mas reconheceu que as duas facções criminosas brasileiras estão sob sua vigilância. Já o gabinete de Lula não comentou.

Em nota, o Departamento de Estado considerou que as facções representam “ameaças significativas à segurança regional devido ao envolvimento com narcotráfico, violência e crime transnacional”.

Nos bastidores, bolsonaristas têm trabalhado há meses para convencer autoridades americanas de que os cartéis de drogas brasileiros representam uma ameaça direta à segurança e aos interesses dos EUA. No ano passado, Flávio esteve em Washington para reuniões com membros de Casa Branca e Departamento de Estado. Segundo interlocutores, ele foi acompanhado de Eduardo. Durante a visita, Flávio, que na época presidia uma comissão de segurança no Senado, apresentou um relatório sobre as atividades de facções no Brasil e nos EUA. O dossiê detalhava suposto tráfico de armas e lavagem de dinheiro.

O governo Lula teme que a designação de terrorismo possa permitir que os EUA imponham sanções a bancos brasileiros, que possam ter feito negócios inadvertidamente com facções. O Planalto ainda alerta que a designação abra caminho para operações militares unilaterais dos EUA no país.

Donald Trump usou a designação de facções de narcotraficantes para justificar ações militares na América Latina, incluindo dezenas de ataques letais contra barcos que, segundo ele, sem apresentar provas, transportavam drogas aos EUA. A designação de grupos venezuelanos também influenciou a justificativa de Trump para a operação militar, em janeiro, que resultou na prisão do então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.

O combate aos cartéis de drogas tornou-se uma importante questão política em toda a América Latina, energizando partidos políticos de direita que retratam a esquerda como fraca no combate ao crime. No Brasil, Flávio e parlamentares de direita tentaram aprovar uma legislação que classificaria os cartéis de drogas como organizações terroristas.

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