SUS inicia testes com semaglutida em pacientes na fila da cirurgia bariátrica

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Projeto-piloto acompanhará 250 pacientes por dois anos em hospital de Porto Alegre

O Ministério da Saúde iniciou um projeto-piloto para avaliar o uso da semaglutida, princípio ativo das chamadas canetas emagrecedoras, em 250 pacientes com obesidade grave que aguardam cirurgia bariátrica no Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre. Durante dois anos, os participantes serão acompanhados por uma equipe multidisciplinar para medir os efeitos do medicamento na perda de peso, no controle de doenças associadas e na preparação para o procedimento cirúrgico.

Divulgação

Em entrevista ao News Domingo, a coordenadora do Serviço de Endocrinologia do GHC, Katia Elisabete Souto, explicou que os pacientes já fazem parte da fila de espera para a bariátrica e apresentam quadros de maior gravidade. “Muitos nem conseguem fazer a cirurgia por não ter condições clínicas, ou por diabetes muito descompensado, problemas cardíacos.”

Segundo a endocrinologista, o tratamento deve reduzir riscos antes e depois da cirurgia. “O uso da semaglutida vai ajudar a que esses pacientes possam ser operados com mais condições e também vai melhorar os desfechos da cirurgia. Evitar as complicações que esses pacientes possam ter, menos necessidade de UTI, eles vão ter uma recuperação melhor.”

Os participantes terão indicadores como peso, índice de massa corporal (IMC) e hemoglobina glicada monitorados ao longo do estudo. De acordo com a médica, a gravidade dos casos motivou a escolha desse grupo para o projeto.1 “Nossa média de IMC é 54, então são pacientes realmente muito graves. E é por isso que o hospital privilegiou essa população mais grave para começar o projeto.”

Possível expansão para o SUS

Para Katia Souto, o estudo pode servir de base para ampliar o acesso ao tratamento da obesidade na rede pública, especialmente porque a patente da semaglutida expirou e laboratórios brasileiros já produzem versões do medicamento.

“O problema do tratamento da obesidade é a injustiça desse tratamento. Nem todos têm acesso, nem todos têm acesso a uma comida saudável. As medicações são caras”, disse.

Ela acrescentou que espera que os resultados demonstrem o impacto econômico da terapia. “O que a gente espera é que com esse estudo isso sirva que vale a pena se tratar, diminui custo pra saúde tratar a obesidade.”

A médica ainda defendeu que, caso a terapia seja incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS) no futuro, ela seja destinada prioritariamente a pacientes com obesidade associada a outras doenças. “Realmente, usar nos pacientes que têm doença associada e não em todo mundo, porque realmente é uma droga cara.”

Medicamento vai além da perda de peso

A semaglutida é um análogo do hormônio GLP-1, que aumenta a sensação de saciedade e atua tanto no sistema digestivo quanto no cérebro. “Ela não é só uma caneta emagrecedora, é realmente uma medicação metabólica”, afirmou.

Segundo a médica, além de favorecer o emagrecimento, o medicamento também contribui para a redução do colesterol e do risco cardiovascular. “Só o fato de diminuir mortalidade cardiovascular já é um grande avanço.

Apesar dos benefícios, Katia alerta para o uso indiscriminado da medicação por pessoas que buscam apenas objetivos estéticos. “As pessoas que mais precisam ficam de fora. Às vezes a pessoa quer emagrecer um quilo, tem uma festa de formatura, um casamento. A gente sabe que existe esse uso abusivo.”0

Ela ressaltou que os participantes do projeto já são acompanhados por médicos, nutricionistas, psicólogos e psiquiatras e que o tratamento depende da adoção de hábitos saudáveis. “Se o paciente não mudar o estilo de vida, não há remédio que tenha sucesso.”

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