Pesquisa do Laboratório Cristália está em fase inicial e busca produzir anticorpos capazes de impedir que a nicotina chegue ao cérebro
O Laboratório Cristália está desenvolvendo uma vacina experimental para combater a dependência de nicotina. O projeto foi iniciado em maio de 2024 e ainda está em fase inicial de pesquisa, sem previsão de chegada aos pacientes nos próximos anos.

A proposta é estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos capazes de se ligar à nicotina presente na corrente sanguínea. Dessa forma, a substância seria impedida de atravessar a barreira hematoencefálica e chegar ao cérebro.
A estratégia é diferente dos principais tratamentos atualmente utilizados para ajudar pessoas a parar de fumar, que procuram substituir a nicotina ou diminuir os sintomas provocados pela abstinência.
Como a vacina funcionaria
Depois que uma pessoa fuma, a nicotina chega rapidamente ao cérebro e se liga aos receptores nicotínicos de acetilcolina. Esse processo favorece a liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de prazer e ao sistema de recompensa.
A vacina desenvolvida pelo Cristália busca interromper essa etapa. A ideia é que os anticorpos produzidos após a vacinação capturem a nicotina ainda no sangue, dificultando sua chegada ao cérebro e, consequentemente, reduzindo os efeitos de recompensa associados ao consumo da substância.
“Uma vez vacinado, se o paciente fumar, os anticorpos capturariam a nicotina ainda na corrente sanguínea, impedindo-a de atravessar a barreira hematoencefálica”, explica Ogari Pacheco, fundador e presidente do Conselho Diretivo do Cristália e idealizador do projeto.
Pesquisa ainda está no início
Atualmente, o projeto está na etapa chamada Early Discovery, considerada uma das fases mais iniciais do desenvolvimento de um medicamento ou vacina. Nesse estágio, os pesquisadores trabalham na seleção de protótipos e na realização de testes de prova de conceito, inclusive em modelos animais.
Segundo o laboratório, os antígenos sintéticos desenvolvidos pela Farmoquímica Oncológica do Cristália já demonstraram, em experimentos com animais, capacidade de estimular a produção de anticorpos específicos e interferir no comportamento relacionado à dependência.
A empresa ainda reúne informações sobre a estrutura química e a eficácia dos compostos para dar entrada em um pedido de patente. A publicação científica dos resultados deverá ocorrer somente após essa etapa.
Estratégia já foi testada no exterior
A ideia de utilizar uma vacina para impedir que a nicotina chegue ao cérebro não é inédita. Pesquisas semelhantes já foram conduzidas por instituições acadêmicas e empresas farmacêuticas dos Estados Unidos e da Europa.
Um dos casos mais conhecidos foi o da NicVAX, desenvolvida pela Nabi Biopharmaceuticals. A candidata chegou à fase 3 de testes clínicos, mas os resultados divulgados em 2011 mostraram que a vacina não apresentou eficácia superior à do placebo em estudos de larga escala. O programa acabou sendo encerrado posteriormente.
O histórico demonstra que, apesar de a estratégia ser considerada cientificamente possível, ainda existem desafios importantes para transformar a abordagem em um tratamento eficaz para a dependência de nicotina.
Vacina ainda está longe de ser aprovada
O desenvolvimento realizado pelo Cristália ainda precisa passar por várias etapas antes de uma eventual aprovação para uso em humanos.
Após a fase inicial, serão necessários estudos pré-clínicos completos de segurança, desenvolvimento farmacotécnico, escalonamento industrial e, posteriormente, ensaios clínicos em seres humanos. Esses estudos clínicos são divididos em diferentes fases para avaliar a segurança, a dose adequada, a eficácia e os possíveis efeitos adversos.
Somente depois dessas etapas poderá ser apresentado um pedido de registro à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Por esse motivo, uma eventual vacina contra a dependência de nicotina ainda está distante de chegar ao mercado. Caso a pesquisa avance com resultados positivos em todas as fases, a previsão é que o produto não esteja disponível antes de uma década.
Tratamento não deve substituir as opções existentes
O Cristália afirma que a tecnologia não foi pensada para substituir os tratamentos já disponíveis contra o tabagismo, mas para funcionar como uma alternativa complementar.
A expectativa é que, ao reduzir a quantidade de nicotina capaz de alcançar o cérebro, a vacina diminua a sensação de prazer provocada pelo cigarro e possa ajudar na prevenção de recaídas durante o processo de abandono do tabaco.
Dependência do tabaco continua sendo um desafio mundial
A pesquisa ocorre em meio a um cenário de forte impacto do tabagismo na saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o consumo de tabaco está relacionado a cerca de 8 milhões de mortes por ano em todo o mundo, incluindo aproximadamente 1,3 milhão de pessoas que morrem em consequência da exposição ao fumo passivo.
Dados do National Institute on Drug Abuse (NIDA), dos Estados Unidos, apontam que cerca de 85% das pessoas que tentam parar de fumar recaem no primeiro ano. O levantamento também indica que aproximadamente dois terços voltam ao cigarro nas duas primeiras semanas após a tentativa de abandono.
A nova vacina brasileira, portanto, representa uma linha experimental de pesquisa voltada a um dos principais desafios no tratamento da dependência de nicotina. No entanto, o projeto ainda precisa superar diversas etapas científicas e regulatórias antes que seja possível saber se a tecnologia poderá se tornar, de fato, uma opção de tratamento para fumantes.





