Felipe Sousa-Lazaballet chegou ao país aos 14 anos, sem falar inglês e sem documentação migratória, e conquistou uma vaga no Legislativo da Flórida aos 40 anos.
O brasileiro Felipe Sousa-Lazaballet, de 40 anos, filho de uma empregada doméstica cearense, foi eleito deputado estadual na Flórida, nos Estados Unidos, nas eleições realizadas na terça-feira (3). Filiado ao Partido Democrata, ele venceu a republicana Bonnie Jackson e se tornou o primeiro brasileiro a conquistar uma cadeira no Legislativo estadual da Flórida. Sua trajetória é marcada por dificuldades financeiras na infância e pela imigração ainda na adolescência.
Natural de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, Felipe foi criado pela mãe, uma cearense que trabalhava como empregada doméstica e sustentava os filhos sozinha. Durante a infância, a família enfrentou dificuldades para garantir condições básicas de moradia e alimentação.

Aos oito anos, ele passou a morar com a mãe em Santa Cruz da Serra, bairro de Duque de Caxias. A residência ainda estava inacabada, tinha plástico no lugar das janelas e não contava com energia elétrica. A família buscava água em um poço e vivia em uma rua sem pavimentação, próxima a uma vala de esgoto.
Para sustentar os filhos, a mãe de Felipe chegou a trabalhar em três empregos, iniciando a jornada por volta das 5h e retornando para casa somente à noite.
Mudança para os Estados Unidos
Em 2001, aos 14 anos, Felipe deixou o Brasil e viajou sozinho para Miami, nos Estados Unidos, onde passou a morar com a irmã mais velha, que havia emigrado anos antes. A mãe não conseguiu obter visto para acompanhá-lo.
Sem falar inglês e sem documentação migratória, o adolescente enfrentou dificuldades para se adaptar ao novo país. Ele permaneceu durante aproximadamente 15 anos em situação migratória irregular.
Aos 26 anos, foi beneficiado pelo programa DACA, criado em 2012, durante o governo do então presidente Barack Obama. A medida oferece proteção temporária contra a deportação e autorização de trabalho a determinados imigrantes que chegaram aos Estados Unidos ainda crianças.
Felipe conseguiu posteriormente a residência permanente, conhecida como green card. Em 2020, casou-se com Luis Sousa-Lazaballet e, no ano seguinte, obteve a cidadania americana.
Da defesa dos imigrantes à política
Antes de disputar um cargo eletivo, Felipe atuou em organizações de defesa dos direitos dos imigrantes e da comunidade LGBTQIA+. Também trabalhou durante cinco anos na administração do prefeito de Orlando, Buddy Dyer.
A experiência com a imigração influenciou sua atuação política, especialmente em questões relacionadas ao acesso a direitos e oportunidades para famílias de baixa renda.
Nas eleições de terça-feira (3), o brasileiro disputou uma vaga pelo Distrito 42 da Flórida, que abrange parte da região de Orlando. Segundo os resultados eleitorais preliminares divulgados pelo estado, Felipe recebeu 49.752 votos, equivalentes a 62,41%, contra 29.972 votos, ou 37,59%, de Bonnie Jackson.
Após a vitória, ele agradeceu aos eleitores nas redes sociais e relembrou sua chegada aos Estados Unidos sem documentação migratória.
“Minha história é o sonho americano: cheguei aqui sem documentos, sem nada em meu nome, e agora terei o privilégio extraordinário de lutar pelos meus amigos e vizinhos como representante eleito”, escreveu.
Durante a campanha, Felipe defendeu medidas para enfrentar o aumento do custo de vida, ampliar a oferta de moradias acessíveis, fortalecer as escolas públicas e melhorar o acesso aos serviços de saúde.
Com a eleição, o brasileiro passa a integrar a Câmara dos Representantes da Flórida, órgão legislativo estadual responsável pela elaboração e votação de leis que afetam a população do estado norte-americano.





