Anuário Brasileiro da Educação Básica aponta que só 20% das escolas públicas têm laboratório de ciências no fundamental

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Aprendizado na prática pode ajudar a despertar o interesse de jovens por profissões ligadas à ciência.

Apenas 20% das escolas públicas de anos finais do ensino fundamental (5º ao 9º ano) têm laboratórios de ciência à disposição dos alunos. No ensino médio, o índice não chega à metade do total de colégios (46,9%), aponta o Anuário Brasileiro da Educação Básica, divulgado nesta quinta-feira (25) pela ONG Todos Pela Educação.

Segundo especialistas ouvidos pelo g1, quando não há investimentos suficientes em infraestrutura nem incentivo a atividades práticas, os alunos:

Foto: Imagem de Freepik
  • passam a ter mais dificuldade de entender conceitos científicos abstratos — reforçando a tendência já registrada em avaliações recentes, como Pisa e TIMMS, em que o Brasil ficou bem abaixo da média internacional nesta área do conhecimento;
  • não demonstram interesse em disciplinas como física, química e biologia;
  • têm menor chance de optar por carreiras ligadas à ciência.

Veja, nesta reportagem, os impactos disso.

Nem metade das escolas públicas tem laboratório de ciências. — Foto: Arte: Veronica Medeiros/g1

Nem metade das escolas públicas tem laboratório de ciências. — Foto: Arte: Veronica Medeiros/g1

O estudo também mostra que:

  • Itens básicos, como acesso à água potável, ligação de energia elétrica, banheiros e cozinha, estão presentes em 95% das escolas públicas. Mas a situação é crítica em estados específicos, como no Acre, em que água potável só existe em 62,9% dos estabelecimentos, e em Roraima, onde apenas 72,3% contam com banheiros.
  • As bibliotecas ou salas de leitura estão disponíveis em menos da metade (47,2%) das escolas de anos iniciais do ensino fundamental – justamente as que atendem alunos em fase de alfabetização.
  • Conforto térmico também aparece como algo raro: apenas 38,7% das salas de aula em uso contam com algum equipamento, como ar-condicionado.
  • A conectividade melhorou nos últimos anos – 95,4% das escolas públicas têm acesso à internet. Mas só 44,5% seguem os parâmetros (como velocidade de conexão) adequados para o uso pedagógico.

Desinteresse dos alunos e crença em fakes

“A forma mais atraente de ensinar um conteúdo é demonstrar as suas várias implicações e aplicações – até visuais. Quem não se fascina com experimentos, mudança de cor, formação de fumaça numa reação?”, questiona Elisa Orth, secretária geral da Sociedade Brasileira de Química e pesquisadora da Universidade Federal do Paraná.

“Tantos conceitos químicos, físicos e biológicos podem ser muito mais facilmente compreendidos quando combinados com experimentos práticos… É uma forma de melhorar o ensino e de incitar futuros cientistas. Um país soberano precisa disso”, diz.
E mais: o laboratório é o espaço ideal para ensinar como funciona o método científico.

“Está muito fácil, atualmente, desacreditar a ciência. As pessoas acham que basta ter uma opinião para desenvolver uma teoria. É preciso saber que tudo envolve observação, hipóteses, testes, análises e verificações. Isso ajuda a não acreditar em qualquer besteira da internet”, explica Márcia Barbosa, membro da Academia Mundial de Ciências, vice- presidente do International Science Council e reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Nem metade das escolas públicas tem laboratório de ciências. — Foto: Arte: Veronica Medeiros/g1

Nem metade das escolas públicas tem laboratório de ciências. — Foto: Arte: Veronica Medeiros/g1

Sobrecarga de professores e necessidade constante de investimentos
É possível aprender ciência sem laboratório? Sim, mas caberá ao professor mais uma atribuição, dentre tantas outras que ele já tem: desenvolver experimentos e aplicações práticas que sejam de baixo custo e que possam ser executados na própria sala de aula.

“A falta de laboratórios prejudica o repertório de recursos para os professores ensinarem — e dificulta o engajamento dos jovens”, diz Manoela Miranda, gerente de Políticas Públicas do Todos pela Educação.
Rafaela Lima, docente da rede pública do Rio de Janeiro e youtuber do canal Mais Ciências, diz que a solução é tentar usar outros recursos de apoio.

“A gente acaba tentando suprir essa limitação com vídeos, simuladores e animações, para que o aluno consiga vislumbrar um pouco mais o conteúdo na prática”, diz.
Ela também destaca a importância de, nas escolas que já dispõem de laboratório, haver um investimento constante na estrutura e na compra de suprimentos.

“Eu trabalho, por exemplo, num colégio público muito antigo, que até tem o espaço, mas só com equipamentos de 20-30 anos atrás. Alguns itens são permanentes, como modelos do corpo humano e vidros. Mas é necessário comprar reagentes e outros produtos. Nosso laboratório está quase sem uso há muito tempo”, conta.

Quem vai querer ser cientista?

É possível que o aluno, em uma aula prática instigante, entenda melhor a teoria e abandone a ideia de que as disciplinas científicas são “impossíveis”.

“Há inúmeros preconceitos — por exemplo, que [ciência] é coisa de homem ou que só quem tem notas altas pode seguir esse caminho. Então, ao dar a oportunidade para o estudante ter contato com laboratórios de ciências ainda nessa fase inicial de formação, pode conseguir instigá-lo e inspirá-lo antes que ele passe a odiar química e física”, diz Elisa Orth.
Como consequência, o aluno terá mais chance de seguir uma carreira ligada a esses campos de conhecimento.

Márcia, da UFRGS, diz que o Brasil já enfrenta um apagão de engenheiros.

“É preciso mostrar aos jovens que eles podem, sim, fazer um experimento e entendê-lo. Isso não é algo exclusivo de países no exterior. Eu mesma só me senti atraída pela ciência porque tive contato com ela no ensino médio e passei noites ajudando a montar o laboratório da escola”, afirma. “Mas pegar na mão do estudante e ajudá-lo exige recursos”, afirma.

E Elisa ainda acrescenta que isso“não é gasto, é investimento com inúmeras consequências” positivas.

“Ter aula de laboratório na escola não serve apenas para formar futuros cientistas — o que é fundamental —, mas também para formar futuros cidadãos.”

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