Como o Natal e o Ano Novo podem aumentar a tristeza, através da síndrome do fim do ano

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Psicólogos apontam que a época de festas pode ser fonte de estresse, angústia e saudade de ‘tempos melhores’

Luzes de Natal, ceia no forno, presentes e novas metas para o ano que chega normalmente trazem sentimentos positivos e de felicidade. Mas para muitas pessoas, a sensação é contrária: estresse, angústia e tristeza muitas vezes surgem na época de festas, em conjunto com a culpa de não se sentir bem em uma época tão feliz. Para psicólogos, o sentimento já tem nome: ‘síndrome do fim do ano’, ou ‘dezembrite’.

Apesar de não ser uma condição médica, como o transtorno de ansiedade ou depressão, a síndrome tem este apelido justamente pelo aumento de casos de pessoas angustiadas com o momento festivo do fim do ano.

Camila dos Santos, de 25 anos, sente a ‘dezembrite’ principalmente pela sensação de fim de ciclo. “Para mim, tem algo a ver com o fim do ano e o começo de um novo ciclo, além da expectativa das pessoas sempre quererem fazer votos para serem melhores, ou um monte de tarefas que querem cumprir”, diz.

A médica geriatra e psiquiatra Roberta França afirma que, muitas vezes, as pessoas revivem angústias nesta época. “Apesar de ser um período de festas e alegrias, é uma época também onde você revive muitas perdas, saudades e muitas dificuldades. Muitas vezes isso acarreta uma angústia, mal-estar e tristeza”, indica.

Divulgação

Além de reviver momentos do passado, há também o estresse das festas de fim de ano, de planejar toda a celebração e a pressão familiar. Grace Joana de Santana, psicóloga do Grupo Reinserir, avalia que as datas podem virar fonte de estresse.

“Isso leva a um aumento destes sentimentos de tristeza, ansiedade, sensação de vazio, entre outros. E outras características também se destacam como perda ou excesso de sono, falta de apetite, desânimo, dificuldades em se concentrar”, pontua.

As psicólogas comentam que há um aumento da procura por atendimento por parte de adultos e idosos nesta época de fim de ano.

“Algumas vezes, as pessoas chegam com um sofrimento agudo e buscam um alívio rápido, muitas vezes imediato. Em alguns desses casos, as pessoas não dão continuidade no ano seguinte. Os que se mantêm percebem ser um processo e que essas queixas precisam ser entendidas mais a fundo”, indica Grace.

“Dezembro é o meu mês de maior demanda, de um estresse emocional, ansiedade, muita depressão e tristeza. Muitos idosos, idosas, não querem comer, desanimados, não querem participar das festas de família, uma sensação de solidão muito grande”, afirma Roberta França.

A psicóloga avalia que o período de festas chega a ser um paradoxo, já que é um momento visualmente feliz. “Você olha para os lados e tem enfeites, brilhos, cores, propagandas de gente feliz, comprando, cantando. Ao mesmo tempo, é quase obrigatório que você se sinta, feliz, disposto, quando muitas vezes você não está”, analisa Roberta. 

E essa sensação de ser obrigada a se sentir feliz deixa Camila dos Santos mais incomodada com as festas de fim de ano. “Essa felicidade exagerada me soa como grande hipocrisia das pessoas, que passam o ano praticando ações diferentes do que propõem nessa época. Sem contar que essa expectativa toda de um ‘fim’ para alguma coisa me faz com que tudo pareça ser muito maior do que é, sufoca, me sobrecarrega”, pontua. 

Saudade de tempos melhores e o luto podem agravar ‘dezembrite’

Na época de festas, é comum ouvir a frase ‘antigamente era bem melhor’. E, segundo as psicólogas, é justamente esta saudade do passado que pode agravar a ‘dezembrite’. “Essas datas sempre vêm acompanhadas de diversas memórias afetivas e saudade. Se adaptar a essa nova realidade é sempre um desafio”, avalia Grace. 

A infância e juventude, muitas vezes com a casa repleta de familiares e memórias de tempos mais felizes, podem trazer o sentimento de saudade e melancolia. 

“Muitos se lembram dos momentos que aconteceram muito antes e não se concretizam mais e muitas vezes esse lugar de alegria, encontro, dá lugar para o sentimento de abandono, solidão. Esses gatilhos todos geram ansiedade, angústia, medo e muitas vezes depressão”, diz Roberta França. 

O luto também é fator determinante na ‘dezembrite’. Segundo as especialistas, quem nunca sentiu tal melancolia de fim de ano, podem passar a sentir após um luto. “E é de maneira geral, seja a morte de alguém querido, de um pet, a perda de um emprego ou o fim de um relacionamento, entre outros”, indica Grace.

Para muitas, é um período de lembrança dos pais que se foram, dos amigos que se foram, pessoas importantes que não estão mais aqui, diz Roberta. 

Reuniões familiares de Natal aumentam a ansiedade na época

Com as festas de fim de ano, surgem também as reuniões familiares que, muitas vezes, causam ansiedade em muitos. No caso de Camila, a relação com parentes até melhorou, mas diz que a época a deixa ansiosa pelos conhecidos comentários desagradáveis. “Tenho que ir com uma preparação mental muito grande, porque sei que ouvirei coisas que me desagradam, tento me policiar, mas as pessoas podem ser desrespeitosas”, afirma. 

  • Não me sinto confortável em festas com pessoas que, às vezes, não quero ver e esse sentimento de ‘amor falso’ me incomoda demais, diz Camila. 

“Para muitos, a família não é fonte de amor e acolhimento e sim, angústia. Esse desconforto pode vir de comparações entre as pessoas, cobranças e/ou desvalorização de conquistas, conflitos políticos e ideológicos, a convivência conflituosa, além de micro agressões ou outras formas de violência que as pessoas podem sofrer nesses espaços”, explica Grace Joana. 

Ter uma rede de apoio pode diminuir a sensação e ‘dezembrite’

Apesar dos sentimentos ruins em época de festas, é possível fazer uma reflexão profunda e entender o que se quer levar para o próximo ano. 

“Esse balanço do ano é importante, mas é bom buscar olhar para realizações e conquistas e ter compaixão por si. É útil conversar com a rede de apoio, sendo pessoas que você pode contar e que vão te acolher em suas preocupações”, indica Grace, que afirma que é preciso procurar ajuda profissional caso o sentimento siga após o fim do ano. 

Roberta afirma não haver fórmula para evitar a ‘dezembrite’, mas a conversa e a procura profissional podem ajudar. “O mais importante é o acolhimento, ao invés de falar ‘não pode ficar assim, tem que ser forte’, ninguém precisa ser forte. Toda fala carrega um grito de ajuda e cabe a cada um tentar acolher”, pontua. 

Camila se sente menos pressionada por entender que a rede de apoio é essencial neste momento de festas. “Me consola saber que podemos escolher nossa família e com quem queremos iniciar os ciclos”, afirma.

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