Farmácias agora só podem vender Ozempic com receita especial; médicos alertam para uso abusivo no Brasil

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Uso inadequado de medicamentos pode desencadear problemas de saúde e levar também a um aumento na demanda, resultando em escassez para quem realmente precisa, como os pacientes com diabetes tipo 2.

A venda de medicamentos agonistas GLP-1, como Ozempic, Wegovy, Saxenda, Mounjaro e similares, usados para o emagrecimento, passa a ter um controle mais rigoroso a partir desta segunda-feira (23). A decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de que deve ser obrigatória a retenção de receita médica para venda desses medicamentos , divulgada no dia 16 de abril, entra em vigor nesta segunda (23) – 60 dias após a publicação no Diário Oficial da União (DOU).

Esta categoria – classificada com a tarja vermelha – só deveria ser comercializada, até então, com a apresentação da receita. Na prática, é comum que ela não seja exigida e, por isso, clientes sem o documento conseguiam comprar os medicamentos.

Especialistas ouvidos pelo g1 destacam um aumento preocupante no uso desses remédios fora das indicações clínicas recomendadas, o que pode ser considerado um uso abusivo e sem acompanhamento médico.

Mario Tama/Getty Images

Além disso, o uso inadequado pode levar a um aumento na demanda por esses medicamentos, resultando em escassez para aqueles que realmente precisam, como os pacientes com diabetes tipo 2.

A votação da Anvisa para decisão sobre a obrigatoriedade da retenção da receita ocorreu após uma análise de farmacovigilância, que se baseou em dados de notificação no VigiMed. O sistema da Anvisa gere dados de efeitos secundários de medicamentos e compartilha com outros países. Numa análise comparativa, foram identificados muito mais eventos adversos relacionados ao uso fora das indicações aprovadas pela Anvisa no Brasil do que no exterior.

Em seus votos, os diretores da agência destacaram que existe a necessidade de proteger a população do uso abusivo desses medicamentos. Conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”, eles foram desenvolvidos para diabetes, mas acabaram sendo também indicados para a obesidade.

A decisão foi tomada pela Anvisa depois da divulgação de uma carta pelo Conselho Federal de Medicina. Nela, os médicos defendiam a necessidade de um maior controle na venda desse tipo de medicamento.

A pesquisadora da USP Thamires Capello apresentou a Anvisa um estudo sobre o perfil dos consumidores das canetas emagrecedores. A pesquisa mostrou que 45% das pessoas fizeram a compra sem prescrição médica. Dessas, 73% nunca tiveram orientação de um profissional de saúde. Além disso, mais da metade usaram apenas para emagrecimento.

Um levantamento do Fantástico exibido no dia no dia 13 de abril mostrou que só nesse ano houve mais de 350 apreensões de medicamentos falsos e contrabandeados em aeroportos de todo o país.

Em apenas duas apreensões na semana passada, a Receita Federal confiscou mais de 600 canetas no Aeroporto Internacional do Recife.

Médicos alertam sobre o uso indiscriminado das canecas emagrecedoras

O uso indiscriminado (de Ozempic e seus similares), principalmente por pessoas que buscam perder peso rapidamente sem a orientação adequada de um profissional de saúde, levanta questões éticas e de segurança.

Por outro lado, médicos reconhecem que esses medicamentos, quando utilizados corretamente, podem trazer benefícios significativos para o controle do peso e da glicemia, melhorando a saúde metabólica dos pacientes.

O uso abusivo dos medicamentos para obesidade pode levar a desnutrição grave, perda de massa muscular, queda de cabelo intensa e problemas relacionados a falta de vitaminas, destaca a médica endocrinologista e diretora do departamento de Endocrinologia do Esporte e Exercício da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Cristina Schreiber.
“Com o acompanhamento médico, a falta de apetite é monitorada, assim como o padrão alimentar, evitando que o paciente pare de se alimentar corretamente, por exemplo. Além disso, os platôs na perda de peso são acompanhados de forma a evitar frustrações, criando novas estratégias durante o tratamento”, acrescenta Schreiber.

O médico nutrólogo Noé Alvarenga acrescenta que o usuário comum não percebe que, como acontece com qualquer medicamento, o uso indiscriminado leva à perda progressiva de eficácia, exigindo doses cada vez maiores para reproduzir o efeito inicial.

“Sem o suporte contínuo de médico e nutricionista, a massa magra se perde de forma irreversível e, após a suspensão da medicação, esse desgaste atua como poderoso gatilho para o rápido reganho de peso”, explica Alvarenga.

Dados recentes indicam que a prática de prescrever esses medicamentos para finalidade, com dosagem ou para faixa etária que não está aprovada pela Anvisa no Brasil (uso off-label) cresceu substancialmente, acrescenta a médica endocrinologista e nutróloga do Grupo Valsa e Membro da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) Samara Rodrigues.

“Uma pesquisa (realizada pela empresa de análise de mercado IQVIA) revelou que, em 2022, o número de prescrições de medicamentos para perda de peso aumentou 41% em comparação com o ano anterior. Isso é preocupante, pois muitos pacientes podem não estar cientes dos possíveis efeitos colaterais, como problemas gastrointestinais, risco aumentado de pancreatite e até mesmo problemas de tireoide”, declara Rodrigues.

Um estudo publicado na revista Diabetes Care mostrou que, em 2021, aproximadamente 30% das prescrições de Ozempic (no mundo) eram feitas para pacientes sem diabetes, o que é um sinal claro de que há uma necessidade de educação e de regulamentação da necessidade de receita para compra.
Especialistas defendem que os profissionais de saúde realizem um trabalho de conscientização junto a pacientes e à sociedade em geral sobre a importância do uso responsável e orientado desses medicamentos.

“A obesidade é uma doença crônica, geneticamente herdada. Assim, durante o acompanhamento médico importantes decisões como aumentar, reduzir a dose são tomadas a fim de que o tratamento se torne eficaz e sustentável ao longo do tempo”, destaca Schreiber.

“A promoção de hábitos saudáveis, como uma alimentação equilibrada e a prática regular de atividade física, deve ser sempre a primeira linha de abordagem para a perda de peso e o controle metabólico”, complementa Rodrigues.
Em nota ao g1, a Novo Nordisk disse que “compartilha das mesmas preocupações da Anvisa quanto ao uso irregular de medicamentos”.

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