Inclusão negra na publicidade brasileira ainda é muito frágil e pontual

-

Pesquisa da USP mostra que avanços recentes não mudaram a estrutura do setor

Uma fotografia de mais de duas décadas de publicidade televisiva brasileira mostra avanços tímidos e instáveis na inclusão de pessoas negras. Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), conduzida pelo Grupo de Pesquisa Estudos Antirracistas em Comunicação e Consumos (ArC2), da Escola de Comunicações e Artes, analisou 17.335 filmes publicitários veiculados entre 2000 e 2024. O resultado evidencia que, mesmo após a promulgação do Estatuto da Igualdade Racial, em 2010, a presença negra segue irregular, reativa e vulnerável a oscilações conjunturais.

Foto: Pexels

Entre 2000 e 2009, período pré-Estatuto, apenas 22% dos anúncios apresentavam pessoas negras. Em 2010, o índice caiu para 15%. Entre 2011 e 2017, a média permaneceu estagnada em 27%.

A primeira grande mudança só ocorre em 2018, quando a participação de pessoas negras ultrapassa 50%, motivada por pressões sociais e políticas, e não por mudanças estruturais na publicidade. Entre 2020 e 2024, a presença cresce e atinge 68,9% em 2022, influenciada por movimentos globais antirracistas, mobilizações digitais e pactos de diversidade corporativa.

Mulheres negras ganham espaço

O estudo revela ainda que, a partir de 2017, mulheres negras passaram a ter maior presença do que homens nos comerciais. Esse avanço coincide com o crescimento de influenciadoras digitais, fortalecimento de agendas feministas e maior consumo de conteúdo online, o que cria oportunidades para representações contraintuitivas e inspiradoras em espaços historicamente resistentes.

Apesar dos avanços, pessoas negras continuam, na maioria dos casos, acompanhadas de atores brancos. Anúncios exclusivamente com negros ainda são exceção. Como observa Francisco Leite, pesquisador líder do ArC2, “mesmo quando a visibilidade aumenta, ela ocorre sob lógicas que mantêm a centralidade da branquitude. É uma presença condicionada, não garantida e naturalizada”.

O desafio estrutural

A pesquisa deixa claro: aparecer não é suficiente. A publicidade brasileira precisa consolidar políticas antirracistas estruturais e transformar as lógicas de representação. Mais do que quantidade, importa a qualidade da presença, ocupando papéis de prestígio, rompendo estereótipos e oferecendo narrativas antirracistas consistentes. Sem isso, avanços recentes permanecem pontuais e frágeis, e a centralidade branca continua sendo reforçada sob novos formatos.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
CAPTCHA user score failed. Please contact us!

Posts Recentes

Jerumenha recebe equipe da SASC para fortalecer ações da Assistência Social

A Prefeitura de Jerumenha recebeu, nesta terça-feira (4), a visita técnica de representantes da Secretaria de Estado da Assistência...

Ministério da Educação divulga lista do IDEB e Piauí tem 2ª melhor nota do País

O Ministério da Educação (MEC) divulgou, nesta quarta-feira (5), os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB)...

Quatro suspeitos ligados ao Bonde dos 40 são presos durante operação na zona sul de Teresina

Uma mulher grávida e outras três pessoas suspeitas de integrar a facção criminosa Bonde dos 40 foram presas em...

SUS vai oferecer testosterona para homens com deficiência hormonal

Ministério da Saúde incorpora medicamentos para reposição hormonal e indução da puberdade em pacientes com hipogonadismo. Homens e adolescentes do...

Iniciado no Porto Piauí o transbordo de minério de ferro para navio com destino a China

Primeiro navio feeder deixou o terminal nesta quarta-feira (5) com minério de ferro destinado ao mercado asiático; operação marca...

Prefeito Jesse James destaca capacitação de professores e recepciona novos concursados durante Imersão Pedagógica em Guadalupe

O prefeito de Guadalupe, Jesse James, participou na manhã desta quarta-feira (5) da Imersão Pedagógica 2026.2, promovida pela Prefeitura,...

Governo do Piauí amplia oferta de cursos técnicos e profissionalizantes para 92 municípios; veja a lista

Programa Mais Formação, Mais Renda amplia oportunidades com 10...

Sites fraudulentos dificultam identificação de bets no Brasil

Ministério da Fazenda tem 123 pedidos de autorização de...

Você também pode gostar
Recomendado para você