Presidente também defendeu investigação de ministros do STF, medidas comerciais contra os EUA e ampliação da atuação federal no combate ao crime organizado.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, defendeu a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes hediondos. A declaração foi feita nesta quinta-feira (15), durante entrevista à TV Globo, conduzida pela jornalista Renata Lo Prete, como parte da cobertura do segundo turno das eleições presidenciais de 2026.
Lula afirmou ser favorável à mudança, mas ressaltou que o tema deve ser discutido separadamente da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública. Segundo o presidente, a prioridade é avançar na aprovação da proposta, que busca ampliar a participação do governo federal no enfrentamento à criminalidade.
Durante a entrevista, o petista também abordou denúncias envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) no caso do Banco Master. Ele defendeu a apuração das suspeitas e afirmou ter conversado três vezes com o presidente da Corte, Edson Fachin, para cobrar providências. Lula ainda defendeu regras de conduta mais rigorosas para os integrantes do Supremo, argumentando que as denúncias precisam ser investigadas e eventuais responsabilidades, apuradas.

Segurança pública e combate ao crime organizado
Ao tratar da segurança pública, Lula defendeu uma atuação mais ampla do governo federal no combate às organizações criminosas. Ele afirmou que a PEC da Segurança Pública pretende fortalecer a participação da União em uma área historicamente conduzida pelos estados.
O presidente também disse que, caso seja reeleito, pretende criar um Ministério da Segurança Pública se a proposta for aprovada pelo Congresso Nacional. Entre as medidas anunciadas, citou o financiamento de 138 presídios federais de segurança máxima.
Lula ainda rejeitou a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas nos mesmos moldes adotados pelos Estados Unidos. Segundo ele, embora as facções pratiquem violência contra a população brasileira, a atuação desses grupos está relacionada principalmente ao crime organizado e à busca por dinheiro. O presidente afirmou que propôs uma parceria ao governo de Donald Trump para combater as organizações criminosas.
Negociação comercial com os Estados Unidos
Na área econômica, Lula afirmou que pretende priorizar o diálogo com o governo norte-americano para resolver o impasse provocado pelas tarifas aplicadas a produtos brasileiros. Apesar de demonstrar confiança em um acordo, o presidente não descartou adotar medidas de reciprocidade caso as negociações não avancem.
Segundo Lula, os dois governos mantiveram conversas e as equipes continuam trabalhando para encontrar uma solução. Ele também destacou que o Brasil ampliou suas relações comerciais com outros países, apesar da redução nas trocas comerciais com os Estados Unidos.
Governo, Congresso e economia
Questionado sobre as dificuldades de sua gestão, Lula assumiu a responsabilidade pelos resultados do governo e reconheceu que não conseguiu fazer com que parte da população compreendesse as ações realizadas. O presidente atribuiu parte dos problemas à situação encontrada quando assumiu o cargo, em 2023, e afirmou que precisou recuperar estruturas da administração pública.
Sobre a governabilidade em um eventual novo mandato, Lula destacou que conseguiu aprovar medidas importantes mesmo com uma bancada menor no Congresso Nacional. Ele citou a reforma tributária e defendeu a participação de diferentes partidos na composição do governo como uma estratégia para garantir apoio às propostas do Executivo.
O presidente também comentou o endividamento das famílias brasileiras e afirmou que o governo pretende ampliar as medidas para renegociar débitos. Entre as iniciativas mencionadas, está uma proposta de leilão de dívidas, com a expectativa de que os bancos ofereçam descontos elevados para facilitar a regularização financeira dos consumidores.
Lula ainda citou medidas voltadas aos microempreendedores individuais (MEIs), incluindo a possibilidade de anistia de determinadas dívidas e a oferta de crédito para que esses trabalhadores possam retomar suas atividades.
Saúde pública e programas sociais
Na área da saúde, Lula reconheceu que ainda há dificuldades para reduzir o tempo de espera por consultas e exames no Sistema Único de Saúde (SUS). Ele citou a contratação de médicos e a expansão do programa Mais Especialistas como iniciativas para ampliar o atendimento.
O presidente também anunciou a previsão de colocar 150 unidades móveis de atendimento em circulação pelo país, com a realização de exames, especialmente aqueles voltados à prevenção e ao diagnóstico de câncer de mama e de útero.
Sobre o Bolsa Família, Lula afirmou que determinou o reajuste do benefício após descobrir que a correção não havia sido prevista inicialmente. Ele também criticou o patamar dos juros no país e defendeu políticas de microcrédito e estímulo à economia para ampliar a renda da população.
A entrevista abordou ainda o aumento das tarifas de energia elétrica. Lula atribuiu parte do problema à privatização da Eletrobras e afirmou que o governo pretende aproveitar o potencial brasileiro de produção de energia limpa para atrair investimentos e fortalecer setores da economia digital.
A entrevista de Lula abriu a série de conversas da TV Globo com os candidatos à Presidência que disputam o segundo turno das eleições de 2026. Flávio Bolsonaro (PL), adversário do petista na disputa, será entrevistado nesta sexta-feira (16), também por Renata Lo Prete.
Por Arthur Stabile, Hadass Leventhal, Nayara Felizardo, Victória Cócolo, g1 — São Paulo





