Vacina pneumocócica passa a abranger 20 sorotipos da bactéria e aumenta de 3% para 77% a proteção contra as variantes mais associadas a quadros severos em menores de 5 anos.
A incorporação recente da vacina pneumocócica 20-valente (VPC20) ao Calendário Nacional de Vacinação amplia a proteção contra doenças graves causadas pela bactéria pneumococo, como pneumonia, meningite e infecções invasivas. A mudança começa a ser implementada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ainda este mês e expande o acesso para pessoas com doenças que aumentam o risco de complicações.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença pneumocócica é a maior causa de mortalidade infantil por doença prevenível. No Brasil, entre 2023 e 2025, foram registrados 4,6 mil casos de meningite pneumocócica e 1,4 mil óbitos, o que representa uma taxa de letalidade superior a 30%.

A nova vacina já estava disponível na rede particular desde junho de 2024 e substitui a pneumocócica 10-valente utilizada até o mês passado na rede pública.
Com a atualização, a proteção passa a abranger 20 sorotipos da bactéria Streptococcus pneumoniae, o dobro da cobertura anterior. Além disso, ela aumenta de 3% para 77% a proteção contra as variantes mais associadas a quadros severos em menores de 5 anos.
A expectativa é imunizar cerca de 2,4 milhões de bebês por ano, fortalecendo a proteção desde os primeiros meses de vida.
"A distribuição das primeiras 514 mil doses já começou, e o início da estratégia de vacinação está previsto para a próxima semana, à medida que os estados começarem a enviar as doses aos municípios. A previsão é disponibilizar mais de 4,5 milhões de doses até o fim de junho", detalhou o Ministério da Saúde.
O imunizante será aplicado no SUS em:
- crianças menores de 5 anos
- crianças a partir de 2 anos com condições clínicas especiais
- idosos a partir de 60 anos ou em situação de institucionalização
- povos indígenas a partir de 5 anos de idade (sem histórico vacinal)
O esquema vacinal é composto de:
- 1 dose aos 2 meses de idade
- 2 doses aos 4 meses de idade
- Reforço aos 12 meses
- Nos idosos, dose única
O início da estratégia está previsto para a próxima semana, à medida que os estados começarem a enviar as doses aos municípios.
O que muda com a nova vacina
A VPC20 passa a integrar o calendário infantil do Programa Nacional de Imunizações (PNI) e também a Rede de Imunobiológicos para Pessoas com Situações Especiais (RIE).
Segundo a Pfizer, fabricante da vacina, um dos principais avanços é a inclusão dos sorotipos 19A e 3, apontados como os mais circulantes no país e associados à maior parte dos casos de doença pneumocócica invasiva.
Como a nova vacina, além dos dez sorotipos da anterior, há a inclusão desses dois principais (19A e 3) e mais oito, totalizando 20.
Esses outros oito sorotipos contemplados estão relacionados ao aumento da resistência a antibióticos e ao potencial de causar infecções invasivas, incluindo meningite, e estão associados à ocorrência de surtos na infância.
O diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha, destaca que a resistência antimicrobiana é cada vez mais ampla em todo o mundo e é um problema de saúde pública. “A relevância desses dois sorotipos (19A e 3) vai depender da faixa etária, mas há possibilidade de aumento de proteção de até 50% só para esses dois tipos”, afirma.
A vacina também inclui cinco sorotipos exclusivos ligados a quadros graves que não estão contemplados em nenhuma outra vacina pneumocócica conjugada disponível atualmente no Brasil.
“A mudança para 20 é muito bem-vinda. Nós tínhamos várias comorbidades que não tinham direito a vacina 13 e agora elas vão ter direito a vacina 20, independentemente do tipo de comorbidade que a pessoa tem. Isso vai possibilitar uma diminuição do impacto da doença na criança e também em outras pessoas que vão ter a oportunidade de se vacinar”, acrescenta Cunha.
Cobertura contra formas graves aumenta
De acordo com a fabricante, a mudança amplia de forma significativa a proteção contra os sorotipos mais associados às formas graves da doença em crianças menores de 5 anos.
A ampliação ocorre em um contexto de aumento dos casos de meningite pneumocócica registrados no Brasil nos últimos anos. Estudos também apontam impacto importante da doença sobre o sistema de saúde, com elevado número de hospitalizações e custos associados, mesmo com a existência de vacinação.
Quem corre mais risco
A bactéria pneumococo pode estar presente na nasofaringe sem provocar sintomas, o que facilita sua transmissão, especialmente entre crianças.
Embora a infecção possa atingir pessoas de qualquer idade, crianças, idosos e indivíduos com doenças crônicas estão entre os grupos mais suscetíveis ao desenvolvimento de formas graves.
Proteção ampliada para pessoas com comorbidades
A atualização também amplia o acesso à vacinação para pessoas com condições clínicas associadas a maior risco de complicações.
Antes, a imunização era direcionada principalmente a pacientes oncológicos, pessoas vivendo com HIV e transplantados. Agora, segundo a Pfizer, também passa a contemplar pessoas com asma grave, doenças cardiovasculares, pulmonares, renais e hepáticas, além de diabetes.
Para bebês e crianças menores de 5 anos, o esquema vacinal varia conforme a idade e a condição clínica. Já para crianças acima de 5 anos e adultos, a VPC20 será aplicada em dose única, exceto em situações específicas, como pacientes submetidos a transplante de células-tronco hematopoéticas (TCTH) e terapia CAR-T.
Especialistas avaliam que a simplificação do esquema pode facilitar a adesão à vacinação.
“A ampliação da vacinação pneumocócica no SUS representa um avanço relevante na proteção de populações mais vulneráveis. Estamos falando de reduzir o risco de doenças graves, hospitalizações prolongadas e óbitos, tanto na infância quanto em pessoas com comorbidades”, afirma Adriana Ribeiro, líder médica da Pfizer no Brasil.
Por Silvana Reis, Gabriela Macêdo – G1





