Prefeitos aliados ao governador Rafael Fonteles fortalecem apoio a Ciro Nogueira, desafiando fidelidade partidária

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Movimentação gera tensão no PT, que ameaça punições, enquanto cenário político no Piauí se mostra cada vez mais fragmentado e repleto de articulações cruzadas entre aliados e adversários

Recentemente, ou nem tão recentemente assim, prefeitos e lideranças ligadas à base aliada do governo começaram a declarar apoio ao senador Ciro Nogueira (PP). E o detalhe que transforma a situação em dor de cabeça política é justamente este: muitos deles pertencem ao PT.

Alguns justificam a movimentação dizendo que se sentem “esquecidos” pelo governo estadual. Outros tratam como independência política. Na prática, porém, o fenômeno tem mais cara de rebeldia silenciosa. Daquelas que ninguém assume oficialmente, mas todo mundo percebe nos bastidores.

Foto: Lucas Dias

O presidente estadual do PT, Fábio Novo, declarou inúmeras vezes que a chamada “infidelidade partidária” não será tolerada dentro da sigla. O discurso é firme. O problema é que a realidade parece um pouco mais teimosa que as notas oficiais.

Ano passado, por exemplo, a Executiva Estadual do PT decidiu suspender por 60 dias a filiação do prefeito de Cajueiro da Praia, Felipe Ribeiro  (PT), após ele declarar voto em Ciro. A reunião foi unânime. Solene. Cheia de simbolismo político.

Mas não produziu exatamente o efeito pedagógico esperado. Porque existe algo em Ciro que continua atraindo prefeitos da base como se fosse ímã eleitoral. E isso porque nem entramos em algo mais delicado: nomes do próprio PSD declarando apoio a Ciro e, ao mesmo tempo, defendendo “diálogo” para apoiar Júlio César.  E é justamente aí que a matemática política começa a ficar interessante.

Dobradinha sem querer? 

A movimentação não fortalece apenas Ciro. Ela também embaralha o jogo da própria base governista. Muitos prefeitos que hoje declaram apoio ao senador do Progressistas também mantêm proximidade com Marcelo Castro (MDB). E vice-versa.

Ou seja: a linha entre governo e oposição começa a ficar cada vez mais parecida com aquelas divisórias de escritório feitas de vidro. Existe. Mas dá para ver perfeitamente o outro lado.

No ano passado, inclusive, Marcelo e Ciro protagonizaram diversos encontros políticos bastante amistosos. Conversas cordiais. Fotos sorridentes. Um clima quase terapêutico para dois grupos que, em tese, deveriam estar em campos opostos.

Nos bastidores, a sensação passada em alguns momentos era quase esta: “Votem em Marcelo, não me importo.” “Podem votar em Ciro, não me importo.” Até alguém começar a se importar…

E nesse tabuleiro, em que Ciro e Marcelo mantêm forte presença municipal, surge uma pergunta inevitável: onde entra Júlio César (PSD)?

E agora?

Júlio tenta transformar um mandato consolidado na Câmara Federal em uma vaga no Senado. O desafio é que eleição para senador exige capilaridade municipal quase obsessiva. Prefeito gosta de senador presente. Gosta de ponte política. Gosta de quem atende telefone em ano sem eleição também. E talvez esteja justamente aí uma das dificuldades.

Ainda assim, Júlio articula alianças próprias, costura apoios e busca reforço nacional para fortalecer sua candidatura. Mas, sinceramente, talvez esse seja um cenário que dependa menos dele e mais da capacidade de articulação do Palácio de Karnak.

Porque nenhuma eleição majoritária no Piauí acontece sem passar pelo crivo do governador.

Questionado por esta colunista, o governador Rafael Fonteles (PT) afirmou que vai apostar no diálogo e naquilo que definiu como “arte do convencimento” para manter a base alinhada.

Traduzindo do politiquês para o português claro: o governo percebeu que a tropa começou a andar sozinha. Rafael ainda deixou um recado que soou menos como conselho e mais como aviso: “Quem está com Lula deve estar com os nomes de Lula.”

E, de fato, dentro da lógica partidária, o caminho natural seria que prefeitos petistas apoiassem os candidatos da base aliada. O problema é que a política raramente respeita caminhos naturais. Especialmente quando entram na equação prefeitos, emendas, interesses regionais e sobrevivência eleitoral.

Enquanto isso, Georgiano Neto, filho de Júlio César, já entrou em campo.

Articulador habilidoso, Georgiano abraçou a tese da reciprocidade dentro da base aliada. Mandou recados políticos, intensificou articulações e demonstra disposição para endurecer o jogo, se necessário.

A mensagem parece clara: apoio, na política, é moeda. E ninguém quer entregar de graça.

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