Rodovia de US$ 1 bilhão não leva a lugar nenhum em Montenegro

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Pequena nação nos Bálcãs, que tenta entrar na União Europeia, pegou empréstimo da China e ainda não concluiu trecho de apenas 41 km. Conselho Europeu alerta para ‘armadilha da dívida’.

A rodovia de 41 km custou quase US$ 1 bilhão e atravessa montanhas com túneis e vales com pontes imponentes na paisagem bucólica de Montenegro. Mas, até o momento, não leva a lugar nenhum e ameaça quebrar a economia do pequeno país de pouco mais de 600 mil habitantes na Europa.

Após seis anos de obras, o sonolento vilarejo de Matesevo, às margens do Rio Tara, abrigará o improvável fim de uma das rodovias mais caras do mundo.

Quando for concluída, a estrada Bar-Boljare vai conectar a cidade de Bar, na costa do Mar Adriático em Montenegro, à vizinha Sérvia, passando pela capital Podgorica (veja mais abaixo).

Mas há um problema. O governo já gastou US$ 944 milhões em empréstimo com um banco chinês para concluir o primeiro trecho da estrada, de apenas 41 km, entre Podgorica e Matesevo.

Ainda é preciso fazer mais 130 km para terminá-la, a um custo provável de, no mínimo, mais US$ 1,2 bilhão. Faltam as ligações entre Bar e Podgorica e entre Matesevo e a fronteira com a Sérvia.

Além disso, a própria Sérvia ainda não assinou acordos para a construção do trecho montanhoso que ligará a autoestrada à sua capital, Belgrado. Sem esses trechos, a estrada não vai a lugar algum.

Rodovia de US$ 1 bilhão não leva a lugar nenhum em Montenegro (e pode quebrar o país europeu) — Foto: Elcio Horiuchi/G1

Rodovia de US$ 1 bilhão não leva a lugar nenhum em Montenegro (e pode quebrar o país europeu) — Foto: Elcio Horiuchi/G1

Empréstimo salgado

Em 2014, o pequeno país dos Bálcãs, que é candidato a entrar na União Europeia, pegou um empréstimo de US$ 944 milhões com um banco chinês para que a estatal chinesa CRBC (China Road and Bridge Corporation) construísse o primeiro trecho da rodovia.

Trabalhadores chineses passaram seis anos cavando túneis em rocha sólida e erguendo pilares de concreto acima de desfiladeiros, e o trecho que liga o vilarejo de Matesevo aos subúrbios da capital, Podgorica, será inaugurado em novembro.

O prazo para começar a quitar o empréstimo começa em julho, antes mesmo de o primeiro trecho ficar pronto (que deveria ter sido inaugurado em maio de 2019, mas atrasou).

Caso a dívida não seja paga, uma comissão de arbitragem em Pequim pode obrigar Montenegro a ceder a gestão de importantes infraestruturas do país, segundo cópia do contrato à qual a agência de notícias France Presse teve acesso.

O projeto faz parte de uma enorme onda de investimentos chineses nos Bálcãs, que geram preocupação na União Europeia de que os governos locais passaram a depender demais do dinheiro de Pequim.

Chineses trabalham na construção da rodovia Bar-Boljare, em Montenegro, em foto tirada em 11 de maio de 2021 perto de Kolasin — Foto: Savo Prelevic/AFP

‘Armadilha da dívida’

Em abril, o ministro das Finanças de Montenegro, Milojko Spajic, tentou diminuir a tensão no bloco europeu, insistindo que o país pode pagar a dívida e não precisa da ajuda.

“Montenegro tem finanças públicas estáveis ​​e sustentáveis ​​e pode financiar regularmente todas as suas dívidas e obrigações para com os parceiros internacionais”, disse Spajic.

Em um relatório de fevereiro, o Conselho Europeu de Relações Exteriores descreveu Montenegro como um “exemplo clássico de diplomacia da armadilha da dívida” — quando um país sobrecarrega outro com dívidas incontroláveis ​​para aumentar sua alavancagem.

O empréstimo de US$ 944 milhões equivale a cerca de 15% do Produto Interno Bruto (PIB) que o país tinha antes da pandemia e um quinto da sua dívida externa.

Por Lucas Sampaio, G1

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