Bate-boca entre Janja e Malafaia põe evangélicas de esquerda em evidência

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O bate-boca entre os dois coloca foco em um grupo pequeno em número, mas estratégico para o presidente Lula (PT).

Quem são as mulheres evangélicas ligadas ao PT, grupo que há anos tenta construir pontes entre a esquerda e um segmento tão arisco ao lulismo?

Para a primeira-dama Janja da Silva, uma lufada de esperança no redemoinho eleitoral que se avizinha, ao contrário do que o pastor Silas Malafaia possa achar. “Ele teve a cara de pau de ir numa rede social e falou que eu estava conversando com mulheres insignificantes. Insignificante é ele, porque toda mulher para mim é importante”, disse na segunda (8), em evento com crentes petistas ou simpáticas ao partido.

Fotos: Roberta Aline/ MDS e Isac Nóbrega/PR

O encontro referido pelo pastor aconteceu em 2025 na Coletivação, igreja de Ceilândia (DF). Malafaia disse na ocasião que a primeira-dama conseguia no máximo reunir mulheres sem “nenhum pingo de expressão no mundo evangélico”.

Ao resgatar a fala, Janja a tirou completamente de contexto, diz o pastor. Há uma “diferença monumental”, segundo ele, entre “mulheres sem expressão” e “insignificantes”. “Uma mulher pode não ter expressão na sociedade, mas ser extremamente significante para sua casa, sua família e sua igreja.”

O bate-boca entre os dois coloca foco em um grupo pequeno em número, mas estratégico para o presidente Lula (PT). Essas mulheres tentam conciliar fé cristã e pautas historicamente associadas à esquerda. Rejeitam a ideia de que ser crente implique adesão automática ao conservadorismo e querem disputar uma narrativa religiosa monopolizada por pastores alinhados ao bolsonarismo.

É gente como Nilza Valéria Zacarias, 54, autora do livro “A Casa da Rita”, conselheira da Presidência e uma “grande amiga” com quem Janja diz conversar bastante para organizar reuniões Brasil afora. O objetivo é identificar obstáculos que evangélicas “viam em nós, do campo progressista”, e ouvir o que essas mulheres têm a dizer –elas que são, em sua maioria, negras e de baixa renda. E também a base das igrejas.

Nilza tem um monte a dizer. Foi quem a fez se tocar da relevância da mulher no cristianismo, afirmou Janja no evento do PT. Deu exemplos: ao ressuscitar, Jesus se revelou primeiro para Maria Madalena, e transformou água em vinho após outra mulher, Maria, alertar que faltava a bebida numa festa. “A gente precisa olhar a Bíblia também pela ótica feminina”, disse a primeira-dama.

Nilza reconhece que a direita conseguiu emplacar no imaginário popular “a ideia de que a esquerda tem que ser combatida”, mas vê sinais de saturação na base. A partidarização dos templos, segundo a coordenadora da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, gera um efeito colateral de esvaziamento.
“Os pastores que insistirem no discurso, assumindo candidatura, vão continuar perdendo gente. Há um cansaço do excessivo discurso político dos últimos tempos”, diz Nilza, que é de uma família batista há gerações –ela frequenta a carioca Nossa Igreja Brasileira.

Nilza lembra de quando estudou num colégio católico, por ser o melhor da região. Era chamada de pagã por colegas, por não ser batizada no catolicismo. Os tempos mudaram, e os evangélicos saíram das franjas sociais. Não tem por que agora tratá-los como um monolito eleitoral, afirma.

“Não existe um ser humano que se diga somente evangélico na vida. Todo mundo é evangélico e alguma coisa.”

A mesma mulher que “reconhece Cristo como aquele que promove vida” sai de casa todo dia “para ter uma vida”. “Ela vai trabalhar, pega ônibus lotado, não tem com quem deixar os filhos, tá no Sisreg [sistema que organiza filas no SUS], sofre violência. É atravessada pelo que atravessa todas as mulheres.”

Mãe, avó, cuidadora de idosos, estudante de serviço social, dirigente partidária e filha de um fundador do PT, Dagmar Santos, 46, mora ao lado de uma “congregação bem bolsonarista” em Lauro de Freitas (BA). Prefere orar numa igreja mais progressista, que para ela acerta no tom: não bate na tecla ideológica, ou assustaria a membresia, diz. “A gente vai fazendo o chamado do Senhor. Não adota muito uma linha de posicionamento entre direita e esquerda.”

Dagmar estava no salão onde Janja disse algo na mesma toada: “Ah, esquerda e direita… Se a gente continuar nisso, talvez fique patinando igual um carro encalhado na lama, sabe? Acho que é o campo progressista que acredita nos valores que estão no Evangelho”.

Faltou combinar com os milhões de evangélicos que aderiram a Jair Bolsonaro (PL) e aliados nos últimos anos –a mesma turma que, mesmo tendo valores mais conservadores do que a média da população, já optou pelo PT antes.

Dagmar acusa pastores que, “de forma muito maldosa, muito perversa”, perceberam que muitos fiéis não conseguem detectar os interesses políticos embutidos na pregação. Também se incomoda com “uma Bíblia instrumentalizada a partir da perspectiva do homem masculinizado e opressor contra as mulheres”.

Daí tantos irmãos de fé “seguirem essa linha da demonização do diferente”, afirma. Ela credita a impopularidade da esquerda nas igrejas a uma maior dificuldade de chegar à base, “pelo falso moralismo mesmo, pela hipocrisia instalada”.

Para Dagmar, o maior erro do campo tem sido a forma de pautar o aborto, caindo na armadilha discursiva de quem é “a favor ou contra a vida”. Quem que vai ser contra a vida afinal? Criminalizar a mulher que interrompe uma gravidez é “subjugá-la duas vezes a uma violência” e condená-la “em condições desumanas no aspecto espiritual”, afirma.

O tema não foi citado na reunião do PT. Campo minado demais.

Deu para sentir quais frentes, na visão dos ali presentes, devem ser priorizadas: o combate ao feminicídio e à violência doméstica, sem esquecer que a igreja costuma ser o primeiro refúgio para fiéis agredidas.

Mortalidade materna, insegurança alimentar e falta de vagas em creches e escolas também afetam muitas evangélicas e, por isso, devem entrar na pauta.
A vereadora em Goiânia Aava Santiago (PSB) jogou luz sobre o que considera ser “uma das estatísticas mais cruéis deste país hipócrita, que faz uma verdadeira cruzada contra mulheres”. Conservadores falam que “a maternidade é sagrada”, mas compactuam com o afrouxamento de leis trabalhistas, disse. Saldo: muitas profissionais voltam da licença maternidade e são demitidas. “A cara da pobreza deste país ainda é uma mãe com seu filho pequeno no colo.”

À Folha Aava defende que a esquerda não caia em arapucas ideológicas. “Quem tem obsessão por esses temas é justamente a extrema direita, não o governo ou o campo progressista, tampouco a grande maioria dos evangélicos”, afirma. “Se você perguntar para qualquer uma das minhas irmãs da Assembleia de Deus o que é prioridade para elas, não vão falar quem pediu casamento LGBTQIA+. Vão falar de creche para os netos, emprego para os filhos, tempo com a família.”

A vereadora conta que tem um monte de tios pastores. Tudo no que acredita, diz, não aprendeu nem na faculdade de ciências sociais nem na militância política. “Eu aprendi primeiro na igreja, na escola bíblica dominical, lendo a Bíblia. Na verdade, a política é um método para aplicar aquilo que o Evangelho me ensina desde que eu nasci.”

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