O Piauí registrou 11 casos de racismo religioso entre janeiro e julho de 2026, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP-PI). O número representa um aumento de 175% em relação a todo o ano de 2025, quando foram contabilizadas quatro ocorrências.
Os registros revelam a permanência de episódios envolvendo intolerância contra praticantes e espaços de religiões de matriz africana. Representantes de terreiros relatam conflitos, reclamações e dificuldades enfrentadas mesmo após mudanças adotadas para reduzir possíveis incômodos à vizinhança.
A mãe de santo Núbia de Xangô afirma que seu terreiro reduziu o volume do som, alterou horários das atividades e adotou outros cuidados. Segundo ela, apesar das adequações e da busca pela regularização do espaço, a Justiça determinou multa diária de R$ 200 e exigiu a instalação de revestimento acústico.
Núbia questiona o tratamento dado ao terreiro e afirma que estabelecimentos de outras religiões não estariam sujeitos às mesmas exigências.
“Paralelo aos nossos ajustes, seguimos respondendo processos em secretarias, no município e agora na Justiça, sem qualquer pedido de vistoria. Nem igreja tem revestimento acústico”, afirmou.
Em outro episódio relatado, durante uma manifestação religiosa realizada no terreiro, um vizinho teria interrompido a cerimônia com xingamentos feitos da janela. Os participantes acionaram a polícia por temerem que a situação evoluísse para violência.
Líder religiosa relata resistência
Núbia de Xangô afirma que chegou a considerar o fechamento do terreiro diante dos episódios enfrentados, mas decidiu manter as atividades.
“Como pode, em 2026, um terreiro ser incendiado ou ter que se esconder no mato? Chega de se esconder! Chega desse racismo!”, declarou.
Os dados da SSP-PI apresentam oscilações nos registros nos últimos cinco anos. Em 2022, foram quatro casos; em 2023, 11; em 2024, 12; e, em 2025, quatro. Nos primeiros sete meses de 2026, o estado já contabilizava 11 ocorrências.
Casos registrados no Piauí
2022: 4 casos
2023: 11 casos
2024: 12 casos
2025: 4 casos
2026 (até julho): 11 casos
SSP adota protocolo para ocorrências
O coordenador de Igualdade Racial da SSP-PI, João Pedro Monteiro, informou que a Secretaria dispõe de um protocolo específico para orientar a atuação policial em ocorrências relacionadas à intolerância religiosa.
“Esse protocolo é a primeira parte da política pública. Ele se desdobra tanto na questão estatística, que está sendo montada para compreender os dados, quanto no procedimento operacional padrão”, explicou.
A violência contra religiões de matriz africana também envolve ataques a terreiros, símbolos, tradições e manifestações culturais. O filósofo Francisco Filho relaciona esse tipo de violência a processos históricos de discriminação e à colonialidade.
Como denunciar
Casos de intolerância religiosa podem ser comunicados pelo Disque 100, da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos; pelo WhatsApp (61) 99611-0100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania; pelo 190, da Polícia Militar; ou diretamente em delegacias.
Denúncias também podem ser encaminhadas ao Ministério Público, à Defensoria Pública e à Ouvidoria da Secretaria da Segurança Pública, pelo número 162.





