BC reduz juros pela segunda vez seguida, mas mantém mistério sobre próxima reunião: entenda os fatores

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BC reduz Selic a 14,5%, cita guerra e inflação e não aponta próximos passos

Apesar da incerteza em relação aos impactos da guerra no Oriente Médio na economia, o Banco Central (BC) reduziu ontem a Taxa Selic em 0,25 ponto percentual, de 14,75% para 14,50% ao ano. A decisão unânime do Comitê de Política Monetária (Copom) repete o movimento realizado em março, quando foi iniciado o ciclo de “calibração” dos juros. Ainda assim, a Selic permanece no maior patamar desde outubro de 2006, em um esforço do BC para alcançar a meta de 3% da inflação.

“O Comitê julgou apropriado dar sequência ao ciclo de calibração da política monetária, na medida em que o período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista propiciou evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica”, afirma o comunicado, “criando condições para que ajustes no ritmo e extensão dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis de forma a assegurar o nível compatível com a convergência da inflação à meta.”

O Copom também voltou a falar em “serenidade e cautela na condução da política monetária”. O ambiente externo, afirmou, “permanece incerto”, em função da indefinição a respeito da duração e dos desdobramentos do conflito no Oriente Médio. “Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities.”

A sede do Banco Central do Brasil em Brasília, Brasil. Foto: Ton Molina/Bloomberg
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Em relação aos efeitos sobre o Brasil, o BC reconheceu que a guerra provocou um “distanciamento adicional” das projeções de inflação em relação à meta. O comunicado, porém, não dá detalhes sobre os próximos passos do Copom, como ocorrido em março, com o objetivo de observar os desdobramentos do conflito, que elevou os preços do petróleo.

Histórico da Taxa Selic — Foto: Editoria de Arte
Histórico da Taxa Selic — Foto: Editoria de Arte

Na avaliação da maioria dos analistas, a autoridade monetária sinalizou que pretende continuar reduzindo a Selic em um ritmo de 0,25 ponto.

Texto mais duro

Para este ano, a estimativa de inflação oficial do BC saltou de 3,9% para 4,6%, acima do teto da meta, de 4,5%. Para o fim de 2027, prazo com o qual o Copom trabalha para alcançar a meta, subiu de 3,3% para 3,5%, ficando mais longe do centro do alvo. Essas projeções consideram o cenário da Selic do Boletim Focus, de 13% no fim deste ano e de 11% no fim de 2027.

A decisão já era amplamente esperada pelo mercado. De 122 instituições financeiras consultadas, 114 projetavam redução para 14,50%, enquanto cinco estimavam manutenção em 14,75% e duas, corte para 14,25%.

Ao mencionar os riscos para a inflação, o comunicado cita, com relação à pressão de alta, a desancoragem das expectativas por período mais prolongado, devido à alta do petróleo; maior resiliência na inflação de serviços; e “uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada”. E lembrou que o mercado de trabalho continua aquecido.

Por outro lado, nos riscos de baixa, o documento aponta uma eventual desaceleração da atividade econômica tanto doméstica quanto global mais acentuada do que a projetada, e uma queda nos preços das commodities, que teria efeitos desinflacionários.

Para a economista-chefe da KAT Investimentos, Elisa Machado, o comunicado foi mais duro do que o anterior ao reconhecer a aceleração da inflação e das expectativas:

— Embora os dados não sejam novos, todos os analistas já tinham esses dados nas mãos, mas o fato de o BC reconhecê-los tem seu peso.

Ela estima que os cortes de 0,25 ponto serão mantidos, mas ressaltou que será preciso analisar a ata da reunião, a ser divulgada semana que vem, para calibrar as apostas para o Copom de junho.

Marco Caruso, economista do Santander Brasil, também não espera uma pausa no ciclo de queda de juros. Em sua avaliação, ao incluir a palavra “extensão” ao lado de “ritmo” no trecho em que cita ajustes na calibração para alcançar a meta, o BC desloca a discussão para o “ponto final” do ciclo, reduzindo a ênfase no próximo passo.

Caruso afirmou em nota que “a mensagem parece ser: segue calibrando, 0,25pp continua na mesa, mas o orçamento total de cortes será reavaliado.”

Já Daniel Miraglia, economista-chefe da Integral Group, afirma que, pela primeira vez, o BC deixou uma porta aberta para fazer uma pausa no corte de juros na próxima reunião, em junho. No cenário da instituição, avalia, o bloqueio no Estreito de Ormuz deve se manter por algum tempo e, mesmo quando encerrado, o movimento de navios custará a se normalizar.

Miraglia lembra ainda que o IPCA-15 deste mês mostrou uma alta de preços mais espalhada, afetando materiais de construção e serviços:

— Se a inflação ao mês ficar no nível do IPCA-15 de abril, já fica proibitivo para o Copom continuar a cortar juros. O mais provável é uma pausa em junho.

Segundo em juros reais

Apesar do corte de ontem, o Brasil se manteve na segunda colocação no ranking dos juros reais, considerando 40 países, com taxa de 9,33% ao ano. Apenas a Rússia, que tem juros reais de 9,67%, está à frente, segundo levantamento feito em parceria entre o MoneYou e a Lev Intelligence. O terceiro no ranking é o México, com taxa de 5,09%.

Em nota, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) afirmou que o ritmo de redução da Selic está abaixo do esperado, o que mantém os juros em patamar “significativamente restritivo.”

No mercado de câmbio, à espera da decisão do Copom, o dólar avançou 0,4%, a R$ 5. Já o Ibovespa recuou 2,05%, aos 184.750 pontos, refletindo aversão global ao risco.

— Podemos dizer que a Bolsa sofre pelo próprio sucesso — disse Marcelo Freller, do C6 Bank. — É uma correção após uma alta muito rápida, de cerca de 130 mil para perto de 200 mil pontos.

*Colaboraram João Sorima Neto e Roberto Malfacini Jr.

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