Bolsonaristas interrompem missas e ofendem padres; religiosos veem falta de respeito

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Casos ocorreram em Aparecida, em Jacareí e no interior do Paraná. Padre Zezinho deixou as redes sociais após ataques bolsonaristas

Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL), candidato à reeleição, têm interrompido missas da Igreja Católica ou ofendido padres sob a alegação de que os religiosos supostamente pedem votos ou defendem temas que julgam serem alinhados à esquerda.

Crédito: Reprodução/Facebook Padre Zezinho deixa as redes sociais após ataques bolsonaristas

A Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e religiosos alertam para o aumento da intolerância. (Veja mais abaixo).

Veja episódios recentes:

Tumulto em Aparecida

Bolsonaristas hostilizam equipes de TVs e fiéis em Aparecida; QG da campanha do presidente teme afastamento de católicos

Bolsonaristas vaiaram o arcebispo de Aparecida (SP), dom Orlando Brandes, durante a homilia. Ele disse que o Brasil precisava vencer muitos dragões, como o ódio, da fome e do desemprego. O padre Camilo Junior elogiou na ocasião os fiéis que haviam ido a Aparecida: “Hoje não é dia de pedir voto; é dia de pedir bênção”. Bolsonaro visitava o Santuário de Aparecida na ocasião.

Padre se retira das redes até o fim das eleições

Relato de padre Zezinho em uma rede social — Foto: Reprodução

Relato de padre Zezinho em uma rede social — Foto: Reprodução

Também em 12 de outubro, depois da confusão de bolsonaristas em Aparecida, padre Zezinho, da Congregação do Sagrado Coração de Jesus, de Minas Gerais, disse em uma rede social que não se manifestaria mais até depois das eleições. “Depois das ofensas de hoje contra o Papa, contra os bispos, contra mim, com calúnias e palavras de baixo calão, estou fechando esta página até dia 31 de outubro (…) Continuam a dizer que sou mau padre, que sou comunista e que sou traidor de Cristo e da Pátria porque ensino doutrina social cristã”. Zezinho é um cantor religioso e inspiração para padres como Marcelo Rossi e Fábio de Melo. “O triste é que as ofensas são todas de católicos radicais que preferiram o seu partido político ao catecismo católico”, escreveu.

Padre interrompido no Paraná ao citar armas

Bolsonaristas hostilizaram um padre que celebrava uma missa em Fazenda Rio Grande, na região metropolitana de Curitiba. Ele havia dito: “O Deus da vida nunca vai estar do lado que vai pregar o armamentismo” e sugeriu enfrentar “todos os dragões que insistem em devorar o projeto de Deus”. O armamento da população é bandeira de Jair Bolsonaro. Então, o padre foi perguntado por bolsonaristas se pregava voto em Lula e era a favor do aborto –temas que não havia mencionado na homilia.

Missa interrompida em Jacareí

Mulher interrompe missa e discute com padre em Jacareí

Uma a mulher interrompeu uma missa e discutiu com um padre em Jacareí, no interior de São Paulo. Um vídeo gravado por fiéis mostra a mulher discutindo com o padre na paróquia usando expressões bolsonaristas –como “esquerdista” e “ideologia de gênero”. O padre havia mencionado na homilia a vereadora Marielle Franco, do PSOL, assassinada em 2018 em circunstâncias ainda não totalmente esclarecidas.

“O senhor não vai falar de Marielle Franco dentro da casa de Deus. O senhor não vai falar de Marielle Franco, uma homossexual, uma envolvida com o tráfico de drogas, o senhor não vai falar de Marielle Franco dentro da casa de Deus. Uma esquerdista do PSOL, uma homossexual, que quer a ideologia de gênero dentro da escola das crianças”, disse a mulher, segundo o jornal O Globo.

Cardeal chamado de ‘comunista’

 Arcebispo de São Paulo, Cardeal Odilo Pedro Scherer, celebra missa na Catedral da Sé — Foto: TV Globo/Reprodução
Arcebispo de São Paulo, Cardeal Odilo Pedro Scherer, celebra missa na Catedral da Sé — Foto: TV Globo/Reprodução

Na mesma data, dom Odilo Scherer, cardeal e arcebispo metropolitano de São Paulo, foi chamado de “comunista” por usar roupas vermelhas –norma da Igreja Católica para cardeais como ele. Foi também acusado de apoiar o aborto, o que é repudiado pela igreja. Dom Odilo também foi associado ao ex-presidente Lula (PT) e a uma suposta “ditadura da esquerda”.

“Sou a favor da família, contra o aborto e toda violência contra a pessoa; não aprovo comunismo nem o fascismo; sou a favor da moral dos mandamentos de Deus. Estou em comunhão com o Papa…”, disse o cardeal sobre suas crenças.

“Tempos estranhos esses nossos! Conheço bastante a história. Às vezes, parece-me reviver os tempos da ascensão ao poder dos regimes totalitários, especialmente o fascismo. É preciso ter muita calma e discernimento nesta hora!”, afirmou.

‘Falta de respeito e sensibilidade’

À GloboNews nesta terça (18), o vice-presidente da CNBB, citando a hostilidade aos religiosos em Aparecida (SP), disse que a agressão verbal é falta de respeito com Dom Orlando Brandes, arcebispo do Santuário, e com o próprio Santuário Nacional de Aparecida. “Não é lugar para manifestações desse tipo”, afirmou. Ao jornal O Estado de S.Paulo, na segunda-feira (17), ele afirmou que a fé dos católicos não pode ser “manipulada” para “fins espúrios” durante as eleições.

Em 11 de outubro, a CNBB divulgou nota lamentando o que chamou de “intensificação da exploração da fé e da religião como caminho para angariar votos no segundo turno” das eleições deste ano. No texto, a entidade afirma que “momentos especificamente religiosos não podem ser usados por candidatos para apresentarem suas propostas de campanha e demais assuntos relacionados às eleições. Desse modo, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil lamenta e reprova tais ações e comportamentos”.

A nota não cita candidatos nem situações específicas.

O ex-presidente Lula (PT), candidato à Presidência, disse em encontro com católicos nesta semana que padres e religiosos têm sido atacados no Brasil porque estão “falando da fome, da pobreza e da democracia”.

Por g1

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