Bolsonaro é questionado sobre 51 imóveis comprados parcialmente em dinheiro vivo e ataca imprensa

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“O UOL, a Folha, o Estadão, O Globo não me dão paz desde antes de eu assumi a Presidência. Eles querem me tirar daqui, fazem parte do sistema. Sistema que integra também nosso TSE, que me ataca o tempo todo, haja vista o tratamento dispensado a mim e ao Lula”, declarou.

O presidente Jair Bolsonaro (PL), candidato à reeleição, voltou a atacar hoje a imprensa e o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) ao participar de uma transmissão ao vivo com o youtuber Thiago Nigro nas redes sociais. Ao ser questionado sobre os 51 imóveis que a família dele comprou com pagamentos parciais em dinheiro vivo, ele disse que a imprensa quer tirá-lo da Presidência.

Ele continuou, citando decisões recentes da Corte. “Tudo contra mim pega, até me proibiram de fazer live na minha casa”, disse.

Foto: Adriano Machado/Reuters

“Agora essa questão de dezenas de milhares de inserções no rádio, está comprovado, o que TSE faz? Nada. E ainda diz que partido não poderia contratar auditoria com dinheiro do fundo partidário, diz ainda que nos estamos querendo tumultuar o Estado democrático de direito. É isso que fazem o tempo todo”.

Nesta semana, o TSE barrou uma ação da campanha de Bolsonaro. O pedido era para investigar supostas irregularidades na propaganda eleitoral transmitida por rádios da região Norte e Nordeste. Segundo a equipe do presidente, esses veículos teriam deixado de transmitir diversas inserções dele, o que supostamente favoreceria seu adversário, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Para o presidente do Tribunal, o ministro Alexandre de Moraes, a campanha não apresentou nenhuma prova concreta da acusação e parece uma tentativa de tumultuar a reta final do segundo turno das eleições. Ele também encaminhou um ofício à Procuradoria-Geral Eleitoral para apurar se o pedido, de fato foi um crime eleitoral.

Bolsonaro criticou a decisão e disse que irá “às últimas consequências” para que as acusações sejam investigadas.

Reportagem que revelou compra de imóveis com dinheiro vivo foi publicada pelo UOL em setembro. O material revelou que 51 dos 107 imóveis negociados pelo presidente ou pela família dele desde 1990 foram pagos, ao menos parcialmente, com dinheiro vivo. O trabalho, feito ao longo de sete meses, consultou mais de mil páginas de documentos requeridos a cartórios de 16 municípios para fazer o levantamento.

Na live de hoje, Bolsonaro voltou a negar que tenha cometido qualquer ilícito. “Pegaram desde 1990 tudo que foi comprado, que disse que esse dinheiro foi comprado com dinheiro (sic). Se fosse, eu não teria nada a ver com isso. Mas o que está na escritura é moeda nacional corrente, toda escritura diz isso”, declarou.

“No passado, era comum comprar imóvel em dólar, porque a inflação era altíssima e a moeda de referência passou a ser o dólar”, declarou. “Eu ser responsabilizado pela compra de imóveis de parentes e ex-parentes meus? Não tem cabimento isso”.

A afirmação do presidente está errada. Dos 51 imóveis, 17 foram citados em investigações do MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro), a partir de dados de quebra de sigilo sobre o esquema de rachadinha nos gabinetes de Carlos e Flávio Bolsonaro.

Os jornalistas Juliana Dal Piva e Thiago Herdy explicaram como rastrearam o pagamento de cada um dos imóveis. Os detalhes e fotos das certidões que embasam a reportagem podem ser consultados aqui.

A reportagem chegou a ser censurada pela Justiça de Brasília. O pedido partiu do senador Flávio Bolsonaro, sob o argumento que o texto citava dados de uma investigação do MP-RJ anulada pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça).

Em sua decisão, o desembargador Demetrius Gomes Cavalcanti, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, desconsiderou o dever da imprensa de informar e o direito da sociedade à informação de interesse público.

No mesmo dia, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça — que foi indicado por Bolsonaro — derrubou a decisão, dizendo que a censura “por melhores que sejam as intenções, não encontra guarida na Constituição Federal”.

Do UOL, em São Paulo

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