Influenciadores mirins só poderão atuar com aval judicial; entenda

-

O fenômeno dos “influenciadores mirins” teve um boom no Brasil, com vídeos de crianças divulgando produtos, mostrando rotinas e até participando de campanhas publicitárias. Mas esse cenário vai mudar após uma decisão da Justiça do Trabalho, da última quarta-feira (27), que proibiu Facebook e Instagram de admitir ou tolerar o trabalho infantil artístico sem autorização judicial. O descumprimento pode gerar multa diária de R$ 50 mil.

No Brasil, 93% das crianças entre 9 e 17 anos usam a internet, segundo a pesquisa TIC Kids Online de 2024. Das 25 milhões de crianças e adolescentes conectados, 83% possuem perfil em redes sociais.

A decisão ocorre em meio ao debate sobre a “adultização” de menores, impulsionado por denúncia do youtuber Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca. Em vídeo publicado em 6 de agosto, ele criticou a exposição de crianças em conteúdos digitais. A denúncia ultrapassou 50 milhões de visualizações e mobilizou políticos, especialistas e famílias.

Projeto contra adultização

Também na quarta (27), o Senado Federal aprovou o Projeto de Lei (PL) 2628/2022 contra a “adultização” de crianças e adolescentes nas redes sociais. A proposta passou pela Câmara dos Deputados na semana passada e foi aprovada em caráter de urgência.

O texto prevê mecanismos de verificação de idade, restrição a conteúdos impróprios e ferramentas de controle para os responsáveis. O texto já havia sido aprovado pela Câmara em regime de urgência.

Embora o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Constituição já proíbam o trabalho infantil, não há regras específicas para redes sociais, e as plataformas atuam como querem. Segundo a legislação brasileira, o trabalho artístico é permitido apenas mediante autorização judicial, conforme o artigo 149 do ECA.

Agora, com a determinação da Justiça do Trabalho, influenciadores mirins precisarão ter a autorização prévia concedida por meio de alvará judicial, expedido por uma Vara da Infância e Juventude, semelhante ao que já ocorre com crianças em novelas, comerciais e peças publicitárias.

Especialistas defendem regulamentação

Para o advogado Marcel Zangiácomo, especialista em Direito Processual e Material do Trabalho e sócio do escritório Galvão Villani, Navarro, Zangiácomo e Bardella Advogados, as novas determinações garantem segurança jurídica e reforçam a proteção integral da criança. Ele alerta, porém, que a Justiça terá de se estruturar para lidar com a alta demanda de pedidos de alvarás.

“A criança não pode ser tratada como “mini-adulta” que trabalha para gerar renda; ela deve ser vista como sujeito de direitos que precisa de proteção integral em qualquer ambiente, inclusive nas redes sociais”, afirmou o advogado trabalhista.

Para a advogada Fernanda Garcez, Sócia da Abe Advogados, especialista e Mestre em Direito do Trabalho pela Pontíficia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) sem um alvará judicial, o trabalho de influenciadores mirins não se diferencia do trabalho infantil proibido por lei.

“A questão toda diz respeito à exploração indevida do trabalho infantil. Pressão por produção de conteúdo e a hiperexposição, segundo especialistas, podem trazer danos irreversíveis à boa formação da criança ou adolescente. Entendo que a atuação como influenciadores deve ser fiscalizada, não só pelos pais, mas por toda a sociedade”, afirmou Garcez.

Influencers mirins em outros países

A França aprovou em 2023 uma lei específica para crianças influenciadoras, que exige autorização estatal e garante que parte dos rendimentos seja reservada a elas. Nos Estados Unidos, a regulação sobre menores em produções audiovisuais já inspirava esse modelo. Na Alemanha, a legislação também impõe restrições rígidas ao trabalho infantil.

Impactos no mercado

Especialistas avaliam que algumas famílias e agências buscarão outras plataformas para explorar conteúdos, burlando as regras determinadas pela Justiça para o Facebook e o Instagram. A tendência é de cautela no curto prazo, o que pode reduzir o ritmo de campanhas digitais.

Zangiácomo destaca que a responsabilização é “solidária”: plataformas, anunciantes, agências e até pais podem ser punidos.

“O recado é claro: todos os atores da cadeia precisam adotar diligência e responsabilidade”, afirma o advogado.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
CAPTCHA user score failed. Please contact us!

Posts Recentes

Polícia apreende carga com mais de 11 mil anabolizantes e medicamentos irregulares na capital paulista

A Polícia Militar de São Paulo apreendeu mais de 11 mil produtos entre anabolizantes e canetas emagrecedoras em um...

Câmara de Guadalupe terá eleição da Mesa Diretora em 9 de outubro, confirma presidente Adão Moura

Por Gleison Fernandes - Jornalismo da UCA. O presidente da Câmara Municipal de Guadalupe, vereador Adão Moura, confirmou que a...

Piauí alcança 2 milhões de pessoas com a Carteira de Identidade Nacional e lidera cobertura no Brasil

Os dados foram divulgados nesta segunda-feira (27) pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) e...

Polícia Federal realiza operação contra crimes sexuais infantojuvenis e cumpre mandados em Guadalupe e São Gonçalo do Piauí

A Polícia Federal deflagrou, na manhã desta terça-feira (28), a Operação Nacional Proteção Integral IV, voltada ao combate de...

Delegado é encontrado morto em casa no Centro de Oeiras nesta terça-feira

O delegado de Polícia Civil Guilherme Tavares Escobar, de 32 anos, foi encontrado morto na manhã desta terça-feira (28),...

Ônibus escolar tomba na BR-343 e deixa alunos feridos em Floriano; suspeita é de falha mecânica

As informações iniciais apontam que alguns alunos sofreram ferimentos leves e foram atendidos pelo Samu. Um ônibus escolar da rede...

Contratos com Alok, Natanzinho e Hungria geram ação contra prefeito de Cocal por uso indevido de verba

Por Gleison Fernandes. O Ministério Público do Estado do Piauí,...

AGU dá 24h para Meta e TikTok removerem conteúdos sobre Janja

Postagem alvo de questionamento sugere que Janja teria sido...

Você também pode gostar
Recomendado para você