A promessa de uma oportunidade de trabalho em home office terminou em prejuízo de R$ 1,2 mil para Ester Nunes, de 26 anos. Profissional de Recursos Humanos, ela caiu no chamado “golpe das tarefas”, uma fraude que começa com atividades simples na internet e, aos poucos, leva a vítima a realizar depósitos sob a promessa de ganhos maiores.
O primeiro contato ocorreu por meio de uma suposta oportunidade de renda extra. Entre as tarefas propostas estava a avaliação de empresas no Google. Inicialmente, Ester recebeu pequenas quantias pelos serviços, o que ajudou a transmitir uma aparência de legitimidade ao esquema.

A situação mudou quando os criminosos passaram a exigir transferências via PIX para que ela pudesse continuar participando das atividades e supostamente aumentar os ganhos.
“Eu não me lembrava de ter enviado currículo para nenhuma vaga, mas resolvi entrar em contato porque parecia uma oportunidade de renda extra”, contou Ester em um relato publicado no TikTok, que já ultrapassa 2 milhões de visualizações.
Como funciona o golpe das tarefas?
O esquema costuma começar com tarefas simples, como curtir conteúdos, avaliar estabelecimentos ou realizar outras atividades online. Para conquistar a confiança da vítima, os criminosos podem efetuar pequenos pagamentos no início.
Depois, a abordagem muda. A vítima é informada de que precisa depositar dinheiro para liberar novas tarefas, aumentar os ganhos ou resgatar um suposto saldo acumulado.
No caso de Ester, o primeiro depósito foi de R$ 300. Depois, os golpistas disseram que ela precisaria enviar mais R$ 900 para liberar os pagamentos. A vítima utilizou parte de sua reserva financeira e fez a transferência.
Em seguida, recebeu uma nova cobrança, dessa vez de R$ 2,6 mil.
Ao informar que não tinha o dinheiro, Ester foi avisada de que não conseguiria recuperar os valores que já havia enviado.
“Foi aí que percebi que era um golpe. Eles diziam que, se eu não continuasse pagando, perderia tudo o que já tinha enviado”, relatou.
Depois de pesquisar sobre a situação, ela descobriu que o saldo apresentado na plataforma era fictício. O único dinheiro que havia sido efetivamente movimentado era aquele enviado por ela aos criminosos por meio do PIX.
Especialistas classificam a estratégia como golpe das tarefas, modalidade que utiliza pequenas recompensas para criar confiança antes de exigir valores cada vez maiores.
Golpe também mira quem procura emprego
A busca por uma oportunidade profissional tem sido explorada por criminosos em diferentes tipos de fraude. As falsas vagas costumam oferecer trabalho remoto, salários acima da média e processos seletivos considerados simples ou rápidos.
A abordagem pode ocorrer por WhatsApp, Telegram, redes sociais ou e-mail, muitas vezes utilizando o nome e a identidade visual de empresas conhecidas para aumentar a credibilidade da oferta.
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) já alertou para tentativas de obtenção indevida de dados pessoais, informações bancárias e pagamentos sob o pretexto de processos seletivos, exames admissionais ou cursos obrigatórios.
A orientação é confirmar a existência da vaga nos canais oficiais da empresa e verificar a identidade do recrutador antes de fornecer qualquer informação pessoal.
Especialista explica como criminosos conquistam a confiança
Jonathan Ramos, pesquisador de segurança da ESET Brasil, explica que os golpes envolvendo falsas oportunidades de emprego podem assumir diferentes formatos, mas têm um objetivo em comum: convencer a vítima a entregar dinheiro ou dados pessoais.
Segundo ele, uma das estratégias é justamente realizar pequenos pagamentos no início.
“O criminoso cria uma relação de confiança pagando pelas primeiras tarefas. Depois, começa a exigir depósitos para liberar novas atividades ou supostos lucros. É nesse momento que a vítima perde o dinheiro e o golpista desaparece”, explica.
Outra modalidade envolve falsas vagas nas quais a vítima é informada de que foi aprovada, mas precisa pagar por cursos, certificados, treinamentos ou exames admissionais antes de começar a trabalhar.
“Empresas legítimas não cobram qualquer valor para participar de processos seletivos. Quem paga pelos custos da contratação é o empregador, nunca o candidato”, afirma Ramos.
O pesquisador também chama atenção para golpes que têm como objetivo obter documentos e outros dados pessoais. Os criminosos podem simular um processo seletivo e solicitar selfies, vídeos ou fotografias de documentos.
Essas informações podem posteriormente ser utilizadas em outras fraudes, como abertura de contas e contratação de serviços em nome da vítima.
“Os golpistas costumam utilizar o nome de empresas conhecidas para transmitir credibilidade e aumentar as chances de convencer a vítima”, afirma.
Veja os principais sinais de uma falsa vaga
Alguns comportamentos podem indicar que uma suposta oportunidade de emprego é, na verdade, uma tentativa de golpe:
- Você não se candidatou à vaga;
- O primeiro contato ocorre por WhatsApp ou Telegram;
- A oferta promete dinheiro fácil ou renda extra;
- O salário é muito acima da média para a função;
- Há cobrança de PIX ou qualquer outro pagamento;
- São solicitados documentos pessoais logo nas primeiras etapas;
- O processo seletivo ocorre exclusivamente por aplicativos de mensagens;
- Há pressão para tomar uma decisão rapidamente.
Como se proteger do golpe do falso emprego
Antes de aceitar uma proposta de trabalho recebida pela internet, especialistas recomendam algumas medidas:
- Pesquise a empresa: confira o site oficial, endereço, telefone e canais de atendimento;
- Confirme a identidade do recrutador: procure informações sobre o profissional e verifique se o contato é feito por canais oficiais;
- Desconfie de vagas que você não solicitou: principalmente quando houver promessa de ganhos elevados;
- Nunca faça pagamentos: empresas não devem cobrar para que o candidato participe de processos seletivos;
- Não clique em links suspeitos: evite também baixar arquivos enviados por contatos desconhecidos;
- Proteja seus documentos: só envie informações pessoais depois de confirmar a autenticidade da oportunidade;
- Mantenha os dispositivos protegidos: mantenha o sistema e o antivírus atualizados.
Golpes com falsas vagas cresceram
Segundo dados da plataforma SOS Golpe, as fraudes relacionadas a falsas oportunidades de emprego e promessas de renda extra cresceram 56% entre março e abril deste ano.
A modalidade ficou em segundo lugar entre as fraudes mais denunciadas à plataforma, representando 17,9% dos registros. O primeiro lugar foi ocupado pelo golpe envolvendo lojas ou empresas pouco conhecidas, com 20,9% das denúncias.
Caí em um golpe pelo PIX. Posso recuperar o dinheiro?
Em casos de fraude envolvendo PIX, a vítima pode solicitar ao banco a utilização do Mecanismo Especial de Devolução (MED), criado pelo Banco Central para possibilitar o bloqueio e a devolução de recursos em determinadas situações de fraude.
A recomendação é entrar em contato com o banco imediatamente após perceber o golpe e apresentar os comprovantes das transferências.
“O mais rápido possível, assim que detectar que sofreu o golpe, entre em contato com seu banco e reporte o problema. Tenha sempre o comprovante do PIX em mãos, que contém informações importantes sobre quem recebeu o valor”, orienta o consultor do Banco Central Breno Lobo.
Segundo ele, após a contestação, o banco da vítima aciona o Banco Central e a instituição financeira que recebeu os recursos. Havendo dinheiro disponível na conta do fraudador, os valores podem ser bloqueados para análise.
O caso é analisado em até sete dias. Se a fraude for confirmada, os recursos disponíveis podem ser devolvidos total ou parcialmente em até 96 horas.
No entanto, a devolução não é garantida. Uma das limitações do mecanismo é justamente a necessidade de haver dinheiro disponível na conta do fraudador. Em muitos casos, os criminosos transferem ou sacam os valores rapidamente.
Se não houver recursos suficientes para cobrir todo o prejuízo, a instituição financeira do recebedor pode realizar novos bloqueios quando houver entrada de dinheiro na conta, até que o valor seja recuperado ou seja encerrado o período previsto para o procedimento.
O MED não se aplica a simples desacordos comerciais ou problemas relacionados à compra de produtos e serviços. Também pode ser utilizado em determinadas situações de falha operacional do PIX, como uma transferência duplicada causada pela própria instituição financeira.
Apesar de existir prazo para solicitar o mecanismo, a recomendação é comunicar o banco o quanto antes. Quanto mais rápida for a contestação, maiores podem ser as chances de encontrar recursos disponíveis na conta utilizada pelos criminosos.
Além do contato com o banco, a vítima pode registrar ocorrência e buscar outros canais de atendimento, como o Procon, além de registrar uma reclamação no Banco Central quando cabível.
Vítima ainda não recuperou o dinheiro
Até o momento, Ester afirma que não recebeu de volta os R$ 1,2 mil enviados aos golpistas.
Segundo ela, foi registrada uma reclamação no Banco Central. A vítima também reuniu prints das conversas com os criminosos, comprovantes dos PIX e o protocolo da solicitação aberta junto ao banco.
O caso serve de alerta para quem procura oportunidades de trabalho pela internet: uma vaga legítima não exige que o candidato deposite dinheiro para começar a trabalhar ou para liberar supostos ganhos.
Fonte:G1





