ONG de petistas recebe R$ 640 milhões do Programa Cisternas de combate à seca do MDS

-

A ONG afirma ter atendido 1,2 milhão de famílias e defende que a presença de lideranças com atuação política não compromete a legalidade do processo

Um programa do Ministério do Desenvolvimento Social para ampliar a construção de cisternas no semiárido brasileiro está no centro de uma controvérsia. A maior parte dos recursos — R$ 640,1 milhões, o equivalente a 85% do orçamento previsto — foi direcionada a uma única ONG, a Associação Um Milhão de Cisternas para o Semiárido (P1MC), comandada por militantes históricos do PT, partido do presidente Lula. A entidade lidera o repasse desde que o governo federal decidiu retomar e expandir a iniciativa em 2023, com um orçamento total de R$ 755,8 milhões.

A escolha da P1MC ocorreu por meio de edital que levou em conta a experiência acumulada na região ao longo de 22 anos. A ONG afirma ter atendido 1,2 milhão de famílias e defende que a presença de lideranças com atuação política não compromete a legalidade do processo, que, segundo ela, é auditável e transparente.

Embora a ONG não execute diretamente as obras, ela subcontrata outras entidades para isso — e aí começa a polêmica. Um levantamento identificou 37 organizações comandadas por filiados ao PT entre as subcontratadas, que, juntas, receberam R$ 152 milhões, o equivalente a cerca de 34% dos recursos já repassados à P1MC.

Entre os exemplos, estão entidades lideradas por ex-membros do governo do Piauí, estado do atual ministro Wellington Dias. A Cootapi, por exemplo, recebeu R$ 9 milhões para construir cisternas no estado e é comandada por pessoas ligadas ao PT que ocuparam cargos públicos na gestão estadual. Outras cooperativas também aparecem no levantamento, como a Comtacte, no Ceará, e o Cecor, em Pernambuco — todas com vínculos políticos ou partidários. Em muitos casos, as sedes dessas organizações são estruturas modestas, levantando dúvidas sobre sua capacidade técnica.

O Ministério do Desenvolvimento Social afirma que a filiação política das entidades não foi considerada no processo de contratação e que os critérios adotados priorizam experiência e capacidade de execução. A pasta também reforça que todas as entidades devem prestar contas, e que o acompanhamento é realizado com base na documentação exigida.

Relatórios da Controladoria-Geral da União (CGU) apontaram falhas na execução do programa, inclusive antes do atual governo. Em uma auditoria feita entre 2020 e 2022, a CGU verificou que 31% das cisternas apresentavam problemas, como rachaduras ou vazamentos, e 10% estavam totalmente inutilizadas. A CGU alertou ainda sobre a concentração de recursos em uma única ONG, mas concluiu que os riscos estão, até o momento, sob controle.

Criado no primeiro mandato de Lula, o Programa de Cisternas foi esvaziado durante o governo Bolsonaro, com apenas 3 mil unidades entregues em 2022 — contra uma média de 58 mil por ano até 2018. Agora, o governo quer retomar o ritmo e prevê investir R$ 1,5 bilhão até 2026, com a meta de beneficiar mais de 100 mil famílias.

Além do programa de cisternas, outras iniciativas do Ministério do Desenvolvimento Social também têm enfrentado questionamentos. Em fevereiro, veio à tona o caso das quentinhas fantasmas, revelado pelo jornal O GLOBO. Recursos públicos foram destinados a uma ONG ligada ao PT para distribuir refeições a pessoas em situação de rua, mas os alimentos nunca chegaram ao destino. Após a denúncia, os contratos foram suspensos.

A Polícia Federal, o TCU e a CGU investigam o caso. Segundo o ministério, qualquer irregularidade confirmada poderá levar ao cancelamento dos convênios e à exigência de devolução dos valores.

Especialistas cobram maior transparência e mecanismos mais robustos de controle, especialmente em contratos de grande volume. Para Guilherme France, da Transparência Internacional, as entidades que recebem recursos públicos precisam adotar práticas de integridade e prevenção a conflitos de interesse. “Com quase R$ 700 milhões envolvidos, o nível de exigência deve ser elevado”, alertou.

Apesar dos avanços prometidos, a principal crítica segue sendo o modelo de gestão indireta, que dificulta a fiscalização e fragiliza o controle sobre a execução das obras. Para o governo, a experiência das entidades é um ativo. Para os críticos, é preciso mais clareza e menos vínculos partidários em ações que lidam com dinheiro público e necessidades básicas da população.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
CAPTCHA user score failed. Please contact us!

Posts Recentes

Irregularidades sanitárias levam Justiça a interditar matadouro público em Paulistana

O Ministério Público do Estado do Piauí (MPPI), por meio da Promotoria de Justiça de Paulistana, obteve decisão judicial...

Júlio César comenta rompimento com o MDB: “Tentamos várias vezes”

O deputado federal Júlio César (PSD) afirmou, em entrevista concedida na manhã desta sexta-feira, 20, que o PSD encerrou...

Postos do Piauí responderão criminalmente por aumento abusivo do preço dos combustíveis

Os postos do Piauí que aumentaram e passarem a aumentar os preços dos combustíveis repassados ao consumidor poderão responder...

Governo fiscalizou 1,1 mil postos de combustíveis para evitar abusos nos preços

Esforço é para coibir formação de carteis e crimes contra a economia O governo federal aumentou a fiscalização sobre postos...

Em Natal, Wellington Dias entrega veículos do MobSUAS à rede socioassistencial nesta segunda (23)

As novas vans com acessibilidade ampliarão o acesso da população aos serviços socioassistenciais. Ato de entrega ocorre a partir...

Mulheres chefiam 71% dos lares do Bolsa Família que superaram a insegurança alimentar

Estudo da FGV mostra que famílias cujo responsável é uma mulher, lideram a redução da insegurança alimentar e nutricional...

No Piauí, a maioria dos hospitais estaduais estão com alvará e auto da Vigilância Sanitária fora do prazo de validade

Irregularidades encontradas nos 30 hospitais vistoriados. Uma fiscalização do Tribunal...

Atos terroristas: Wellington Dias denuncia roubo de documentos, armas e HDs

Segundo o ex-governador do Piauí, as ações de ontem...

Você também pode gostar
Recomendado para você