Medida está relacionada às novas regras europeias sobre o uso de antimicrobianos na produção animal; setor de frango espera retomada em novembro, enquanto restrições à carne bovina podem se estender até 2028
As exportações brasileiras de produtos de origem animal para a União Europeia (UE) estão suspensas devido às novas exigências do bloco sobre o uso de determinados antimicrobianos na produção animal. A restrição alcança produtos como carnes de frango, bovina e suína, ovos, mel, pescados e animais vivos destinados à produção de alimentos.

A medida afeta um mercado que movimentou US$ 1,8 bilhão para o Brasil em 2025. Segundo dados do Agrostat, sistema do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), os países da União Europeia importaram 368,1 mil toneladas de produtos brasileiros de origem animal no ano passado.
A situação, no entanto, varia de acordo com cada cadeia produtiva. Para carne de frango e mel, existe expectativa de retomada das exportações ainda neste ano, enquanto a adequação da cadeia bovina às exigências europeias pode demandar um período maior.
Frango pode acumular perdas de US$ 243 milhões
No setor de carne de frango, a expectativa é que a suspensão seja revertida em novembro, após a conclusão da auditoria europeia e a análise dos resultados pelas autoridades do bloco.
Até uma eventual retomada, as perdas podem chegar a aproximadamente US$ 243 milhões. O cálculo considera a média mensal de US$ 97,136 milhões em exportações brasileiras de frango para a União Europeia neste ano.
O Paraná é o estado brasileiro mais exposto aos efeitos da restrição sobre a avicultura. Dados do Relatório Anual 2026 da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) apontam que o estado exportou 2,103 milhões de toneladas de carne de frango em 2025, correspondentes a 40,76% dos embarques nacionais.
Santa Catarina ficou em segundo lugar, com 1,201 milhão de toneladas, seguido pelo Rio Grande do Sul, com 686,3 mil toneladas; São Paulo, com 330,8 mil; e Goiás, com 272,9 mil toneladas.
Segundo a Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP), os efeitos da restrição europeia sobre as cadeias de avicultura e bovinocultura de corte podem superar US$ 392,2 milhões por ano no estado.
Carne bovina pode enfrentar restrição mais longa
A situação da carne bovina é diferente. Estimativas apontam que o Brasil pode deixar de exportar aproximadamente US$ 1,828 bilhão para a União Europeia entre setembro de 2026 e julho de 2028, considerando a média mensal dos embarques registrada neste ano.
A perspectiva de um período mais longo de restrição está relacionada ao ciclo produtivo dos bovinos. Como os animais podem levar entre 24 e 36 meses para completar o ciclo de produção, a cadeia precisa demonstrar que atende às novas exigências europeias durante todo esse período.
Por esse motivo, ainda não há previsão de uma auditoria europeia específica que permita a retomada das exportações brasileiras de carne bovina. A normalização poderá ocorrer somente depois que o país tiver animais submetidos integralmente aos novos procedimentos de controle.
Apesar do impacto financeiro, a União Europeia representa uma parcela menor das exportações brasileiras de carne bovina quando comparada à China.
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), o Brasil exportou 4,529 milhões de toneladas de carne bovina em 2025. A China recebeu 2,143 milhões de toneladas, enquanto 231,4 mil toneladas foram destinadas ao mercado europeu.
Para o professor de Agronegócio Global do Insper Marcos Jank, o volume enviado à Europa é relativamente baixo, embora o mercado europeu tenha importância pela maior remuneração de determinados produtos e cortes.
“O que acontece na Europa é que eles pagam preços melhores, porque a gente atende diversos segmentos lá, por isso, os preços são mais altos do que em outros lugares do mundo. Mas os volumes são bastante baixos e restringidos por cotas”, afirmou.
Suspensão pode afetar preço das carnes no Brasil?
Os possíveis efeitos da suspensão sobre o consumidor brasileiro dividem especialistas.
O professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB) José Luis Oreiro avalia que o redirecionamento de parte das carnes que seriam destinadas à Europa pode aumentar a oferta no mercado brasileiro e exercer pressão de baixa sobre os preços.
Segundo Oreiro, mais de 100 mil toneladas de carne bovina e cerca de 230 mil toneladas de frango que teriam como destino o mercado europeu podem precisar ser absorvidas internamente ou redirecionadas para outros países.
“O mercado interno brasileiro tem capacidade para absorver esse volume excedente, mas o aumento da disponibilidade local pressiona as margens de lucro dos frigoríficos e pode resultar em produtos mais baratos nos supermercados”, explicou.
O especialista em comércio exterior Celso Figueiredo, sócio da Barral Parente Pinheiro Advogados, avalia de forma diferente. Para ele, a participação relativamente pequena da União Europeia nas exportações brasileiras e a existência de outros compradores reduzem a possibilidade de alterações significativas nos preços internos.
Brasil adotou novos controles em julho
Para atender às exigências europeias, o Brasil colocou em vigor, em 1º de julho, novos procedimentos de controle sobre o uso de antimicrobianos nas cadeias de proteínas e de outros produtos de origem animal.
A legislação da União Europeia estabelece restrições ao uso de determinados medicamentos antimicrobianos na produção de animais destinados à alimentação. As exigências também se aplicam aos produtos importados pelo bloco.
Em 31 de julho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou uma carta à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, solicitando a reinclusão do Brasil entre os fornecedores autorizados de carne de frango e mel antes da conclusão das auditorias sobre o sistema brasileiro de controle.
Para esses dois produtos, a expectativa é de que a situação possa ser revista em novembro, após a conclusão da auditoria e a avaliação das autoridades europeias.
Setor acompanha negociações
A ABIEC informou que trabalha com os demais integrantes da cadeia produtiva e presta suporte técnico ao Ministério da Agricultura e Pecuária nas tratativas com as autoridades europeias.
A entidade também desenvolveu, juntamente com a Associação Brasileira das Empresas de Certificação por Auditoria e Rastreabilidade (ABCAR) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), um protocolo privado para controle do uso de antimicrobianos.
Segundo a ABIEC, todas as empresas associadas habilitadas a exportar para a União Europeia aderiram ao protocolo.
A ABPA informou que acompanha com o governo brasileiro a missão europeia responsável pela inspeção do sistema de produção de carne de frango. A associação afirma que a avicultura brasileira atende aos requisitos estabelecidos pela União Europeia e que os trabalhos da missão têm transcorrido de forma satisfatória.
China, Estados Unidos e Ásia aparecem como alternativas
Enquanto o acesso ao mercado europeu não é normalizado, parte dos produtos poderá ser direcionada para outros destinos.
China e Estados Unidos aparecem entre os mercados com maior capacidade de absorção. O Oriente Médio também é apontado como alternativa, principalmente para carne bovina e de frango produzidas sob certificação halal.
No mercado asiático, países como Vietnã e Indonésia também aparecem entre os possíveis destinos, embora uma ampliação significativa das vendas dependa de acordos comerciais e habilitações sanitárias.
No caso da carne bovina, os Estados Unidos podem assumir papel relevante. O país abriu uma cota temporária para importação de 300 mil toneladas de carne bovina procedentes do Brasil e do Paraguai, criando uma possibilidade adicional para redirecionamento dos embarques.
A ABIEC afirma, porém, que não existe substituição automática do mercado europeu, já que cada país possui exigências e demandas próprias para cortes e produtos.
A expectativa do setor é que as negociações sanitárias e a implementação dos novos controles permitam a retomada gradual das vendas à União Europeia, começando pela carne de frango e pelo mel, enquanto a cadeia bovina deverá enfrentar um processo mais longo de adequação.





