PIX, STF e redes sociais: os principais argumentos do governo brasileiro contra o tarifaço

-

Governo norte-americano listou uma série de fatores para justificar a nova tarifa de 25% imposta contra os produtos brasileiros.

O governo brasileiro divulgou nesta quinta-feira (16) uma nota contestando os argumentos do governo Trump para aplicar o novo tarifaço de 25% contra o Brasil.

Entre os fatores usados pelos Estados Unidos estão o Pix, ações do Supremo Tribunal Federal (STF) contra big techs, desmatamento e corrupção (veja mais detalhes abaixo).

A tarifa adicional contra os produtos brasileiros foi confirmada na madrugada desta quinta-feira, e a medida entrará em vigor em 22 de julho.

Foto: Ricardo Stuckert / PR

No documento, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que iniciará “imediatamente” os trâmites previstos na Lei de Reciprocidade, aprovado pelo Congresso Nacional no ano passado.

A Lei de Reciprocidade é um mecanismo que permite a um país aplicar a outra nação as mesmas medidas, restrições ou tarifas que sofreu por parte dela. Na prática, se um governo estrangeiro impõe sanções ou barreiras unilaterais “injustas”, o Brasil usa a norma para reagir na mesma moeda, adotando restrições equivalentes para reequilibrar as relações e proteger a economia.

Segundo o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), o tarifaço é resultado de uma investigação que concluiu que “várias práticas do Brasil são consideradas injustificáveis e discriminatórias, restringindo a competitividade de agricultores, trabalhadores, inovadores e exportadores americanos”.

Veja abaixo os argumentos utilizados pelo USTR para a aplicação do tarifaço e o que o Brasil diz:

  • PIX;
  • Corrupção no Brasil;
  • Ações do STF contra as big techs;
  • Tratamento injusto na política de tarifas brasileira;
  • Proteção inadequada à propriedade intelectual;
  • Tarifas sobre o etanol;
  • Desmatamento.

PIX

Sobre o PIX, o USTR afirmou que o banco central brasileiro “desfavoreceu provedores de serviços de pagamentos eletrônicos dos EUA, ao mesmo tempo em que favorece seu sistema nacional”.

O Brasil argumenta que o sistema de pagamento é destinado a “ampliar o acesso da população e das empresas a meios de pagamento modernos, seguros e instantâneos”.

Além disso, afirmou que mesmo após o lançamento do Pix, o uso de cartões de crédito cresceu 150% entre 2019 e 2024.

“O sucesso do Pix tem despertado interesse internacional e consolidado o Brasil como referência global em pagamentos instantâneos. Desde 2021, 47 bancos centrais solicitaram apoio técnico do Banco Central do Brasil para desenvolverem seus próprios sistemas de pagamentos instantâneos”, diz a nota.

Corrupção no Brasil

Sobre a corrupção, o USTR alegou que “não é algo novo” no Brasil, porém o país “se afastou ainda mais das normas globais relacionadas ao combate ao suborno e à corrupção”. O gabinete citou um Índice de Percepção da Corrupção (CPI) da Transparency International, em que a máquina pública brasileira teria pontuado apenas 35 de 100 pontos possíveis.

O governo brasileiro alega que os EUA desconsideram informações oficiais anteriormente encaminhadas pelo Brasil, “bem como documentos recentes produzidos pelos próprios organismos internacionais referenciados pelo USTR como fundamento de suas conclusões”.

Na nota divulgada nesta quinta, o Brasil afirma que Transparência Internacional não é um organismo oficial reconhecido por vários países e que em fevereiro deste ano, a organização publicou um documento onde reconhece avanços relevantes do Brasil no fortalecimento das políticas de combate à corrupção, à lavagem de dinheiro e ao crime organizado.

“Destaca-se também que as iniciativas brasileiras de prevenção e combate à corrupção são reconhecidas por organismos internacionais da maior credibilidade, como o Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI/FATF), organização de iniciativa dos países da OCDE”.

Ações do STF contra as big techs

Sobre as ações contra as big techs, o USTR falou em “comércio digital” para incluir tais medidas no balaio, e relembrou ordens de restrição emitidas pelo STF nos últimos anos contra algumas redes sociais, como o bloqueio Rumble e uma suspensão temporária do X.

Essas restrições foram justificadas pela Justiça brasileira por conta das plataformas terem se recusado a cumprirem leis do país ou ordens de retirada de conteúdo.

O governo brasileiro afirma que regula o ambiente digital de forma não discriminatória, “com base em objetivos legítimos de proteção do consumidor, segurança jurídica, estabilidade financeira e proteção de dados”.

Além disso, diz que decisões do Supremo Tribunal Federal aplicam-se igualmente a empresas nacionais e estrangeiras e não têm como alvo empresas norte-americanas.

“Empresas norte-americanas operam normalmente no ecossistema brasileiro de pagamentos e continuam expandindo sua presença no país. As políticas brasileiras promovem concorrência, inovação e inclusão financeira, sem criar barreiras ao comércio dos Estados Unidos”.

Tratamento injusto na política de tarifas brasileira

Sobre a política de tarifas brasileira, o USTR acusou o Brasil de adotar “tratamento injusto e preferencial”, e publicou um gráfico que supostamente mostraria favorecimento ao México e à Índia, em detrimento dos EUA.

Segundo o governo, o Brasil negocia seus acordos comerciais conforme as regras da Organização Mundial do Comércio.

“Os acordos preferenciais celebrados no âmbito do Mercosul, inclusive com Índia e México, estão amparados pelas flexibilidades previstas para acordos entre países em desenvolvimento. Esses acordos possuem escopo limitado e não prejudicam os interesses comerciais dos Estados Unidos”.

O governo Lula afirma ainda que o comércio entre Brasil e Estados Unidos “permanece altamente aberto e mutuamente benéfico”.

“O Brasil aplica suas tarifas de forma transparente e não discriminatória, em conformidade com seus compromissos internacionais”.

Proteção inadequada à propriedade intelectual

Sobre a proteção à propriedade intelectual, o USTR afirmou que o Brasil “não oferece proteção adequada e eficaz à propriedade intelectual ou acesso justo e equitativo ao mercado para pessoas dos Estados Unidos que dependem de propriedade intelectual”, porém sem dar mais detalhes.

O governo Lula afirmou que o Brasil conta com um sistema moderno e robusto de proteção da propriedade intelectual, alinhado aos principais acordos internacionais e que nos últimos anos, implementou “uma ampla Estratégia Nacional de Propriedade Intelectual, voltada ao fortalecimento institucional e à modernização do sistema”.

“O Brasil permanece aberto ao diálogo e à cooperação internacional para fortalecer ainda mais a proteção e a observância dos direitos de propriedade intelectual, respeitadas as necessidades da área da saúde”.

Tarifas sobre o etanol

Sobre o etanol, o USTR afirmou que o Brasil “descontinuou seu tratamento tarifário anteriormente equilibrado para o etanol dos EUA e falhou em corresponder às tarifas norte-americanas ao etanol brasileiro”.

O Brasil afirma que as alegações de restrição injustificada ao acesso de mercado “não encontram respaldo nos fatos nem nas normas multilaterais” e que ao tratar do tema, propôs tratar em conjunto com os EUA os mercados de etanol e açúcar.

“As tarifas dos EUA, acima da cota de 150 mil toneladas, alcançam cerca de 100%. Mas os EUA nunca responderam a essa proposta”.

Além disso, o governo brasileiro afirmou que as tarifas aplicadas ao etanol cumprem os compromissos multilaterais assumidos na OMC e que o Brasil “mantém um dos mercados de etanol mais abertos e competitivos do mundo”.

“A política brasileira é aplicada de forma não discriminatória, sem direcionamento contra qualquer parceiro comercial. O mercado brasileiro continua sendo relevante para exportadores norte-americanos, e as condições de acesso são compatíveis com as regras internacionais”.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
CAPTCHA user score failed. Please contact us!

Posts Recentes

Helicóptero com sogro do governador Rafael Fonteles fez pouso forçado em José de Freitas

A aeronave pertence à Construtora Canopus, empresa do pai de Igor Vidal, genro de Araujinho. O empresário Francisco da Costa...

Crimes contra professores e médicos podem ter penas maiores; entenda

Texto amplia penas para os crimes de lesão corporal, ameaça, incitação ao crime, desacato, calúnia, difamação, homicídio, entre outros...

Tia de recém-nascida que sofreu tentativa de sequestro será indiciada por calúnia e difamação, diz delegada

Segundo a Polícia Civil, mulher divulgou, nas redes sociais, imagens de uma supervisora da maternidade que não tem relação...

Anvisa manda recolher água mineral após detectar bactéria

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou o recolhimento voluntário de dois lotes da água mineral sem gás...

Nova divisão dos royalties do petróleo pode render R$ 2 bilhões por ano ao Piauí

O Piauí poderá receber cerca de R$ 2 bilhões por ano caso o Supremo Tribunal Federal (STF) confirme a...

Neurocirurgião Jacinto Lay tem morte cerebral confirmada quase dois anos após acidente aéreo em Teresina

O neurocirurgião piauiense Jacinto Lay, de 52 anos, teve a morte cerebral confirmada nesta quinta-feira (16), quase dois anos...

Novo salário mínimo terá impacto de R$ 124 bilhões na economia, aponta estudo do Dieese

A estimativa é de um incremento de R$ 81,5...

Wellington Dias assume ministério e anuncia recadastramento para o Bolsa Família

O senador Wellington Dias (PT) tomou posse na tarde...

Você também pode gostar
Recomendado para você