Bolsonaro cortou 90% da verba destinada ao combate à violência contra a mulher

-

Canal de denúncia Ligue 180 pode ficar sem dinheiro em 2023; campanha do presidente tenta reduzir rejeição entre eleitorado feminino.

O presidente Jair Bolsonaro (PL) cortou em 90% a verba disponível para ações de enfrentamento à violência contra a mulher durante sua gestão.

O dinheiro destinado ao Ministério da Mulher, Família e dos Direitos Humanos para proteção das mulheres caiu de R$ 100,7 milhões, em 2020 —primeiro Orçamento inteiramente elaborado por Bolsonaro—, para R$ 30,6 milhões no ano passado. Neste ano, sobraram apenas R$ 9,1 milhões, de acordo com dados da pasta.

Para 2023, o governo enviou ao Congresso uma proposta de Orçamento que prevê uma leve recuperação dos recursos, atingindo R$ 17,2 milhões. Na comparação com 2020, no entanto, ainda há uma queda acentuada (83%).

Vítimas devem marcar um “X” com caneta ou batom vermelhos na mão se quiser sinalizar situação de violência

Em média, são necessários R$ 30 milhões por ano para esse canal, que funciona 24 horas por dia e em 16 países, além do Brasil.

O Ministério da Mulher, Família e dos Direitos Humanos justifica a redução de recursos com o argumento de que adota políticas transversais (que englobam diversas áreas). Por isso, afirma a pasta, ações setoriais como de igualdade racial também beneficiam mulheres.

No entanto, iniciativas da pasta, como promoção da igualdade racial, fortalecimento da primeira infância e educação em direitos humanos, já existiam desde o início do governo e mantiveram um patamar de próximo de R$ 2 milhões para cada área.

“O governo federal acredita que promove e articula políticas públicas universais de direitos humanos, com especial atenção às mulheres”, disse a pasta.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre março de 2020, início da pandemia no país, e dezembro de 2021, foram registrados 2.451 casos de feminicídios e 100.398 de estupro e estupro de vulnerável com vítimas do gênero feminino.

O Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos) ressalta que, no caso das Casas da Mulher Brasileira, que fazem o atendimento às vítimas, o corte na verba pode prejudicar o acompanhamento dado às mulheres, que muitas vezes precisam ser afastadas do seu agressor.

“Deveriam ser investidos mais recursos para que se reduza a violência e também para que as vítimas sejam atendidas. Essa política foi rapidamente desmontada nesse governo”, disse Carmela Zigoni, assessora política do Inesc.

“O Bolsonaro vem tentando disputar o voto feminino, mas o machismo dele não é só no gesto, nas palavras, mas também nas prioridades orçamentárias do seu governo”, disse a deputada federal e líder do PSOL na Câmara, Sâmia Bomfim (SP).

O partido fez um estudo do histórico das políticas para mulheres e concluiu que Bolsonaro foi o primeiro presidente a “não propor um programa específico que explicite o combate à violência contra a mulher” –os recursos para essa finalidade foram unificados ao programa de promoção e defesa de direitos humanos para todos.

Procurado, o Palácio do Planalto não se manifestou sobre o corte nos recursos para as medidas de enfrentamento à violência doméstica.

A primeira-dama, Michelle Bolsonaro, tem ganhado cada vez mais protagonismo na campanha para tentar melhorar a imagem do presidente no público feminino.

A ideia é tentar minimizar a imagem machista do presidente dando voz a Michelle, que desde a convenção para oficializar a candidatura à reeleição faz discursos com apelo religioso e troca demonstrações de carinho com o marido.

Mas, no discurso, em Brasília, durante o 7 de setembro, o presidente, em cima de carros de som, pediu voto, reforçou discurso conservador e deu destaque a Michelle, com declarações de tom machista.

Em peça publicitária da campanha, o PL apresentou feitos de Bolsonaro às mulheres em seu mandato, como a sanção das leis Mariana Ferrer (que proíbe que vítimas de crimes sexuais e testemunhas sejam constrangidas durante audiências e julgamentos) e da violência psicológica.

Mas essas iniciativas foram propostas pelo Congresso —coube ao presidente apenas sancionar (confirmando a proposta do Legislativo).

“Se para alguns parece estranho que Jair tenha feito tanta coisa pela proteção das mulheres é porque não conhecem o presidente”, disse Michelle em vídeo produzido na corrida eleitoral.

A locutora do vídeo também tenta suavizar a do presidente imagem ao dizer que “não é com discurso que o Jair demonstra respeito com as mulheres, é com realizações”.

Por Thiago Resende/Folha S. Paulo

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
CAPTCHA user score failed. Please contact us!

Posts Recentes

Câmara de Guadalupe realizará sessão solene pelos 97 anos do município no dia 25 de agosto e entregará 20 Títulos de Cidadania

Por Gleison Fernandes - Jornalismo da UCA. A Câmara Municipal de Guadalupe realizará, na próxima terça-feira (25), sessão solene alusiva...

Supremo Tribunal Federal amplia Lei Maria da Penha para incluir violência social

Decisão abrange agressões em locais de trabalho e comunidades. O Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que a Lei Maria da...

Número de candidaturas LGBT+ cresce 57% e bate recorde nas eleições de 2026

O número de candidaturas LGBT+ registrou um recorde para as eleições gerais de 2026. Até o agora, há 514...

Joel faz caminhada pelo Centro de Teresina e ouve de populares: “Você sim, é como a gente”

Para Joel, a segurança pública do estado deve acompanhar o cidadão do Centro de Teresina, que neste momento pede...

General Etchegoyen diz que falta de apoio militar barrou golpe no Brasil no 8 janeiro

Sergio Etchegoyen, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional, comenta os desdobramentos da tentativa de golpe de Estado em janeiro...

STF estende medidas da Lei Maria da Penha para casos sem vínculo familiar

O STF ampliou a aplicação das medidas protetivas de urgência da Lei Maria da Penha para todos os casos...

Observatório europeu aponta que junho de 2025 foi o 3º mais quente da história na terra

Mês registrou temperatura 1,30°C acima da média pré-industrial e...

Vereadores aprovam projetos e indicações durante sessão na Câmara de Guadalupe

O presidente da casa, Adão Moura, apresentou projeto concede...

Você também pode gostar
Recomendado para você