Aborto legal em menores: entenda o que o projeto aprovado muda na prática

-

Em votação relâmpago, norma que orientava o atendimento de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual foi derrubada; medida segue para o Congresso.

O Senado Federal aprovou, na última terça-feira (02) o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) que suspende uma resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) sobre o atendimento a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. A medida afeta protocolos relacionados ao acesso ao aborto legal nos casos já previstos pela legislação brasileira, como gravidez resultante de estupro, risco à vida da gestante e anencefalia fetal.

Violência sexual contra crianças cresceu mais de 4 vezes em 11 anos

O texto, de autoria da deputada federal Chris Tonietto (PL-RJ) e relatado pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF), já havia sido aprovado pela Câmara dos Deputados em 2025. Com a aprovação no Senado, segue agora para promulgação pelo Congresso Nacional.

A resolução suspensa era a de número 258/2024, editada pelo Conanda. O documento estabelecia diretrizes para o atendimento de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual, incluindo orientações para serviços de saúde, assistência social, conselhos tutelares e órgãos do sistema de Justiça.

Entre as medidas previstas estavam a capacitação de profissionais para identificar situações de violência sexual, a garantia de atendimento sigiloso e humanizado e protocolos para evitar a revitimização das vítimas durante procedimentos médicos, hospitalares e judiciais.

O que muda

A resolução do Conanda não alterava as hipóteses de aborto legal existentes no Brasil, mas organizava o acesso a direitos já previstos em lei. O texto determinava, por exemplo, que o procedimento não dependia de boletim de ocorrência ou autorização judicial nos casos legalmente permitidos.

Também previa protocolos de escuta especializada, regras para notificação de casos e mecanismos para assegurar que crianças e adolescentes recebessem orientação adequada sobre seus direitos.

Com a derrubada da norma, essas diretrizes deixam de ter validade nacional. Especialistas e entidades ligadas aos direitos humanos avaliam que a mudança pode criar mais obstáculos administrativos para vítimas que buscam atendimento. Já os defensores do PDL argumentam que o Conanda extrapolou suas competências ao regulamentar temas que, segundo eles, deveriam ser disciplinados pelo Congresso Nacional.

Durante a tramitação, a senadora Damares Alves afirmou que o conselho tem função de formular diretrizes e acompanhar políticas públicas, mas não de criar direitos ou modificar regras já estabelecidas em lei.

Reprodução/Senado Federal

Reações ao debate

A aprovação provocou manifestações de parlamentares e organizações da sociedade civil. Grupos contrários ao projeto passaram a chamá-lo de “PDL da Pedofilia”, argumentando que a medida dificulta o acesso ao aborto legal por crianças e adolescentes vítimas de estupro.

Através de redes sociais, a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) se posicionou contra o projeto. “Agora, meninas que forem estupradas pelo próprio pai vão precisar de autorização desse mesmo pai para conseguir atendimento médico. Isso é uma derrota de todo o Brasil”, disse.

A deputada federal Duda Salabert (PDT-MG) criticou a decisão e afirmou que a resolução do Conanda tinha como objetivo organizar o atendimento e reforçar o acesso a direitos já previstos na legislação brasileira. Segundo ela, retirar essas garantias pode aumentar a vulnerabilidade de crianças e adolescentes em situação de violência.

Por outro lado, parlamentares favoráveis ao projeto sustentam que a resolução tratava de temas que exigiriam debate e aprovação pelo Poder Legislativo, não podendo ser regulamentados por um órgão vinculado ao Executivo.

O Conanda é o principal órgão colegiado responsável por formular, orientar e fiscalizar políticas públicas voltadas à proteção de crianças e adolescentes no Brasil e está vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.

Como o PDL é uma modalidade legislativa que não depende de sanção presidencial, a medida passa a valer após a promulgação pelo Congresso Nacional. A decisão, no entanto, ainda poderá ser questionada judicialmente por partidos políticos, entidades ou organizações que entendam haver conflito com direitos previstos na Constituição e no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
CAPTCHA user score failed. Please contact us!

Posts Recentes

Banco Central anuncia redução da Selic para 14,25% durante semana de trégua no Oriente Médio

Copom agora fala em 'aceleração da atividade econômica' e aponta 'estímulos à demanda' como novo fator entre os principais...

Rafael Fonteles visita obras de asfalto na zona leste de Teresina com investimento de R$ 6 milhões em cinco ruas

Obras executadas pelo DER-PI, através do programa Mais Asfalto, fortalece o comércio e a prestação de serviços na zona...

Governo planeja aumentar limite do MEI e permitir contratação de mais um funcionário

Em audiência na Câmara, ministro Durigan não informou, porém, qual será proposta de ampliação do limite atual de faturamento....

Deputado Markus Kalume organiza encontro estratégico em Floriano com equipe do governador Rafael Fonteles

Evento contou com a participação de membros da gestão estadual, vereadores e lideranças locais para debater prioridades da cidade...

Joel Rodrigues fortalece pré-campanha com visitas e diálogo em viagem pelo Sul do Piauí

A agenda no extremo Sul do estado continua nos próximos dias, com passagens previstas por municípios como Gilbués, Corrente,...

“Não se meta nas eleições no Brasil”, diz Lula a Trump

"A única coisa que eu quero é respeito pelo Brasil", afirmou O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta...

Prefeitura de Luís Correia autoriza retorno do comércio e turismo

De acordo com o documento os estabelecimentos terão restrições...

Qual é a semente que promove a saúde celular, protege o coração e reduz a inflamação?

Além de nutritivas, possuem propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias As sementes...

Você também pode gostar
Recomendado para você