Indústria tenta barrar avanço na abertura comercial no Brasil

-

A abertura comercial é um exemplo de reforma que não avança no País, pela reação organizada dos setores.

A abertura comercial é, talvez, o exemplo mais evidente de reforma que não avança no Brasil pela reação organizada dos setores que se sentem negativamente afetados. A maioria da população, que seria beneficiada pelo acesso a produtos mais baratos e, por vezes, de melhor qualidade, é naturalmente dispersa e desorganizada.

Esta constatação não chega a ser novidade. A novidade é a crescente mobilização de congressistas por entidades empresariais que têm seus interesses contrariados, apresentando projetos legislativos para se opor a medidas liberalizantes adotadas ou anunciadas pelo Executivo. Exemplos dessas iniciativas que tramitam no momento no Congresso Nacional são alterações à Medida Provisória (MP) 1040/2021, o Projeto de Decreto Administrativo 575/20 e o Projeto de Lei (PL) 537/21.

A MP 1040/2021, voltada para a modernização do ambiente de negócios, inclui disposições na área de comércio exterior. O Capítulo IV dispõe sobre a facilitação do comércio e, na proposta original, o art. 7.º determinava a “vedação aos órgãos e às entidades da administração pública federal direta e indireta de estabelecer limites aos valores de mercadorias ou de serviços correlatos praticados nas importações ou nas exportações ou deixar de autorizar ou de licenciar operações de importação ou de exportação em razão dos valores nelas praticado”.

A iniciativa de vedar legalmente a prática de limites de preços nas importações por si só já é surpreendente, pois, a rigor, tais mecanismos estão proibidos pelas normas da Organização Mundial do Comércio (OMC) e deveriam ter sido substituídos pelos dispositivos do Acordo de Valoração Aduaneira, promulgado no Brasil em 1995. No parecer do relator, a vedação à prática de limites de preços nas importações foi eliminada com a justificativa de que o tema voltará a ser tratado em “projeto de lei à parte”. O parecer desvenda a origem dessa eliminação ao indicar as entidades da indústria que vêm participando da tramitação da MP.

Na linha de eliminar dispositivos que podem ameaçar interesses setoriais específicos, tramita no Congresso, desde 2020, uma ação parlamentar contrária ao regime de análise de interesse público na aplicação de medidas de defesa comercial – o Projeto de Decreto Legislativo de Sustação de Atos Normativos do Poder Executivo, PDL 575/2020. O projeto visa à revogação da prerrogativa da Camex de suspender, reduzir ou não aplicar medidas antidumping, quando elas não forem consideradas de interesse público.

Mais ousado é o Projeto de Lei 537/21, que “dispõe sobre as condições e limites aplicáveis à alteração de alíquotas do imposto sobre a importação de produtos”. Entre os parâmetros definidos pelo PL está o que estabelece que, em relação a cada linha tarifária, “a alteração não poderá ultrapassar 10%, para mais ou para menos, em relação à alíquota vigente (…) a qual seria revista a cada três anos”.

O projeto prevê ainda que as alterações de alíquotas do Imposto de Importação deverão ser precedidas de consultas públicas e audiências com os setores produtivos. Até mesmo reduções tarifárias temporárias – que decorrem em geral de problemas de desabastecimento doméstico – passariam a estar sujeitas à comprovação “de que não há uma indústria nacional a ser protegida, ou que, havendo produção doméstica, ficar comprovado que há recusa, incapacidade ou impossibilidade de fornecimento em prazo e a preço normal”.

O elo entre essas iniciativas é a busca, cada vez mais desabrida, de setores da indústria de mecanismos para evitar qualquer avanço, ou mesmo para obter retrocessos, no processo de abertura comercial da economia brasileira. A redação do PL 537/21 não deixa dúvidas quanto à sua origem e sua motivação. Não há menção aos impactos das reduções tarifárias nos preços ou na renda real dos consumidores. De acordo com o PL, o que há que proteger a qualquer custo é “a indústria nacional”. A confusão entre o interesse nacional e o interesse da indústria – ou o de alguns de seus setores – é a tônica comum a essas iniciativas.

Por Estadão Conteúdo

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
CAPTCHA user score failed. Please contact us!

Posts Recentes

Supervisor do Bolsa Família é exonerado após denúncia de estupro contra adolescente durante visita em Parnaíba

Servidor foi denunciado por uma adolescente de 16 anos; Polícia Civil realizou diligências e solicitou perícia no local onde...

André Mendonça vai relatar ação de Renan Santos contra aumento do Bolsa Família

Candidato do Missão questiona reajuste de 15% anunciado pelo governo Lula e aponta possível caráter eleitoreiro da medida. O ministro...

Seleção de famílias para o Minha Casa, Minha Vida na gestão de Antônio Reis em Floriano é investigada pelo Ministério Público

O Ministério Público do Estado do Piauí (MPPI) instaurou inquérito civil para apurar supostas irregularidades no processo de seleção...

Emenda do deputado Marcos Aurélio do Piauí paga construtora do seu ex-chefe de gabinete

A construtora Atlanta recebeu os valores por obras em UBS (Unidades Básicas de Saúde) nas cidades de Cocal e...

Lideranças de várias regiões de Teresina declaram apoio à reeleição de Ciro Nogueira

O senador e candidato à reeleição Ciro Nogueira (Progressistas) tem recebido adesões de todas as regiões do Piauí e,...

Ministro do STF rejeita ação de Zé Trovão contra reajuste do Bolsa Família de Lula

André Mendonça considerou que Zé Trovão não é parte legítima para fazer o questionamento contra o aumento anunciado por...

Joel Rodrigues ou Margarete, pesquisa vai apontar quem será o candidato da oposição para o cargo de governador

Progressistas apostam na pesquisa para unificar a candidatura e...

Prefeitura de Floriano discute programação do Bicentenário da Independência e 7 de setembro

Na tarde da segunda-feira (8), o prefeito Antônio Reis...

Você também pode gostar
Recomendado para você