Relatora no TSE vota pela cassação do governador do Rio de Janeiro e julgamento é interrompido após pedido de vista

-

Procuradoria-Geral Eleitoral também pediu a condenação por suposto uso da Fundação Ceperj e da Uerj para contratação de cabos eleitorais

A ministra Isabel Gallotti, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), votou nesta terça-feira pela cassação e inelegibilidade do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL). A Corte iniciou a análise do processo que aponta irregularidades na campanha ao governo do estado em 2022. O julgamento foi interrompido após pedido de vista do ministro Antôno Carlos, o segundo a se manifestar.

Ainda não há prazo para a retomada da análise, mas a expectativa é que o processo volte à pauta nas próximas semanas.

Foto: Emerson Leal/STJ

Em seu voto, Gallotti determinou ainda a realização de eleições suplementares ao governo do estado e a retotalização dos votos para o cargo de deputado estadual a partir da cassação do deputado estadual Rodrigo Bacellar.

Castro é acusado de abuso de poder político e econômico pelo suposto uso da Fundação Ceperj e da Uerj para contratação de cabos eleitorais.

O processo apura se Castro se beneficiou de um esquema de distribuição de cargos e recursos para obter apoio político. De acordo com a ministra, o caso revela um “conjunto de circunstâncias extremamente grave”.

— Observadas em conjunto, as condutas revelam elaborado esquema de uso da estrurtura administrativa estadual e seus recursos com a finalidade de influenciar nas eleições — disse a ministra, que acrescentou: — Os investigados usaram disposições de comando no governo estadual para, valendo de suas prerrogativas, construir um projeto de poder.

Durante o voto, Gallotti rebateu ainda o entendimento estabelecido pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ), que absolveu a chapa de Castro por 4 votos a 3.

— Não procede a alegação presente no voto vencedor no TRE que, a despeito da decisão liminar que determinou o fim das contatações temporárias, as intenções de voto de Claudio Castro cresceram aceleradamente. Isso porque, além de não haver provas robustas e convincentes de que tais contratações foram suspensas no início da campanha, a campanha investigada passou a pagar os contratados por meio da Uerj — apontou ainda a magistrada.

Em nota, o afirma que “confia” na “verdade dos fatos” e que a “correção do processo” será reconhecida.

“Não surgiu qualquer elemento novo que justifique a revisão das decisões já analisadas e confirmadas em duas instâncias. O governador reafirma o seu compromisso com os mais de cinco milhões de fluminenses que lhe confiaram o voto e segue dedicado à gestão do Estado do Rio de Janeiro, com foco na segurança pública, no crescimento econômico e na melhoria da qualidade de vida da população”.

Ao iniciar seu voto, a ministra lembrou que a jurisprudência da Justiça Eleitoral diz que o abuso de poder político pressupõe o uso da máquina para subverter o conceito de parida durante as eleições, sem que seja necessário que as ações tenham sido tomadas durante a campanha.

Segundo Gallotti, as contratações feitas pelo governo do Rio para a Uerj deveriam ser feitas mediante processo seletivo, conforme previsto em lei. A ministra ainda disse que os funcionários foram admitidos sem transparência e sem critérios específicos. Para ela, houve responsabilidade do governador.

— Chama a atenção que os trabalhadores temporários recebiam suas remunerações mediante saques em espécie, na boca do caixa, entre janeiro e agosto de 2022. A percepção de múltiplos pagamentos evidencia que não se tratavam de servidores eventuais — disse.

De acordo com a relatora, o deputado estadual Rodrigo Bacellar desempenhou um papel determinante para as contratações pela Ceperj e pela Uerj.

— Cláudio Castro aparece numa posição central no esquema, editando normativos que viabilizaram as irregularidades. Rodrigo Bacellar usou sua posição estratégica para destinar recursos públicos para a Uerj e Ceperj — afirmou a ministra.

Durante o julgamento, a Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) também pediu a cassação de Castro. Segundo o órgão, houve uso indevido da estrutura estatal e abuso de poder político e econômico durante a disputa eleitoral.

— As irregularidades julgadas pelo TRE (Tribunal Regional Eleitoral) evidenciam um método estruturado, com notório objetivo político-eleitoral, para promover as pretensas candidaturas — disse o vice-procurador-geral Eleitoral, Alexandre Espinosa, ao afirmar que a apertada maioria obtida por Castro no TRE não significou o não reconhecimento de irregularidades.

Foi a partir desta derrota no TRE que a Procuradoria recorreu ao TSE para tentar cassar os mandatos.

De acordo com o Ministério Público, as provas referentes à participação dos envolvidos demonstraram a participação de cada um, caracterizando o abuso de poder político e econômico.

— (A PGE pede à Corte para) reconhecer a conduta vedada e a prática de abuso político e econômico, cassando os diplomas dos envolvidos, exceto do vice-governador, que assumiu cargo no Tribunal de Contas.

Ao pedir a cassação, o Ministério Público também solicitou ao TSE a inelegibilidade de Castro, Rodrigo Bacellar e de outros acusados.

— O contexto fático indica que os investigados se dedicaram a adotar uma série de condutas planejadas para influenciar no processo eleitoral de 2022, por meio da descentralização orçamentária e o uso de entidades desvinculadas da administração direta, consolidando aporte de recursos em significativa desproporcionalidades em contratação de milhares de pessoas que eram remuneradas por meio de saques em agências bancárias — apontou ainda Espinosa.

O advogado da coligação de Marcelo Freixo, derrotado nas eleições de 2022, Paulo Henrique Telles Fagundes, afirmou que esse “certamente é o maior caso de abuso eleitoral já visto na história do país”.

— Imaginar que no ano das eleições 28 mil contratações não tinham objetivo eleitoral é brincar com a inteligência de vossas excelências . Alguém que é eleito com abuso de poder, não pode permanecer com o diploma de eleito — disse.

O advogado Fernando Neves, que falou em nome de Castro, rebateu os argumentos apresentados pela Procuradoria. Segundo ele, as contratações alvo de contestação representam um número ínfimo considerando o eleitorado do Rio de Janeiro. Ele ainda apontou que o Ministério Público falhou em provar o caráter eleitoreiro dos contratos. 

Em caso de cassação, quem assume o governo é o presidente do Tribunal de Justiça (TJ-RJ), desembargador Ricardo Couto de Castro, até a realização de eleições suplementares.

A lei prevê duas hipóteses no caso de cassação de governadores. Caso ocorra a menos de seis meses do fim do mandato, a nova eleição será indireta, com voto dos deputados estaduais. Fora desse prazo, a eleição será direta.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
CAPTCHA user score failed. Please contact us!

Posts Recentes

Passageira de motocicleta morre em colisão na BR-020 em São Raimundo Nonato; carro é encontrado incendiado

O fato aconteceu no bairro Aeroporto, em São Raimundo Nonato, Sul do Piauí. Uma mulher, de iniciais R. L. S....

PT oficializa candidatura de Lula à reeleição em convenção partidária

Esta é a oitava vez que o petista disputa pela vaga no Planalto e, caso ganhe, será seu quarto...

Aos 80 anos, Lula é candidato à Presidência da República pela oitava vez

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) oficializa neste domingo (2) sua candidatura à reeleição durante convenção nacional...

Ciro Nogueira quebra protocolo e convida Cristina do Firmino para discurso na convenção

Cristina do Firmino havia cogitado ser candidata a deputada estadual pelo Progressistas nesta eleição Durante a convenção da base oposicionista,...

“Chegou a hora do Piauí ter uma governadora”, afirma Lúcia Santos em convenção do PSDB

O evento marcou o início oficial da corrida eleitoral do ninho tucano no Piauí A Federação PSDB/Cidadania homologou, durante convenção...

Piauí conta com 93 cidades livres de lixões; Ministério Público denuncia 14 gestores

O balanço do programa Zero Lixões por um Piauí Mais Limpo foi apresentado por Áurea Madruga, promotora de Justiça...

Projeto que permite irrigação em área de proteção recebe críticas

Aprovado na CCJ por 37 votos contra 13, o...

No Piauí, mais de 11 mil alunos não retornaram às aulas presenciais por questões de saúde

Na rede estadual de ensino, são cerca de 227...

Você também pode gostar
Recomendado para você